Sejam Bem-Vindos!

"É uma grandiosíssima calúnia dizer que tenho revoltas contra a Igreja. Eu nunca tive dúvidas sobre a Fé Católica, nunca disse nem escrevi, nem em cartas particulares, nem em jornais, nem em quaisquer outros escritos nenhuma proposição falsa, nem herética, nem duvidosa, nem coisa alguma contra o ensino da Igreja. Eu condeno tudo o que a Santa Igreja condena. Sigo tudo o que ela manda como Deus mesmo. Quem não ouvir e obedecer a Igreja deve ser tido como pagão e publicano. Fora da Igreja não há salvação."
Padre Cícero Romão Batista

sábado, 11 de agosto de 2012

Irmão Leigo Franciscano: Identidade e Missão



 As diferenças constituem um dos pilaresde qualquer construção de identidade. Para nós cristãos, movidos pelo desejo de um mundo cada dia mais justo, a diversidade é riqueza incontestável e necessária às comunidades. Nesse contexto a vocação do Irmão leigo é um dom e uma riqueza para as nossas fraternidades. Ela se apresenta com a sua forma específica de viver dentro da missão em um carisma específico. Ela por excelência mostra a originalidade e profetismo da Vida Religiosa.

Nas diversas congregações essa vocação tem seu próprio contorno. Nas congregações que são laicas parece não ocorrer tantas crises em relação a identidade. Tudo está ali: formação religiosa, acadêmica, carisma, etc. Entretanto, nas diversas congregações ditas mistas (Clérigos e leigos) os conflitos na formação da identidade são acentuados.

A ordem franciscana é um exemplo claro dessa realidade. O ideal de Francisco de Assis, de uma fraternidade evangélica, logo foi turvado em sua fonte. Clérigos e Leigos começaram uma disputa pelo controle da ordem. No capítulo de 1239 vemos que os clérigos "jugavam não desfrutar da posição que mereciam" (DESBONNETS, 1987, p.125).

E assim, a fraternidade originária onde a sociedade estava reconciliada, livre de divisões, reassume o antigo vício. Um dos pilares responsável por essa mutação da ordem doi o Ministro Geral Aymon de Faversham. Esse pode ser considerado o segundo fundador da ordem, estabelecendo uma estrutura clerical.

Desse momento em diante começam as nomeações de bispos franciscanos e, em pouco tempo, já eram dezenas pela Europa. Com a clericalização da ordem, os irmãos leigos ficaram impedidos de assumir cargos. Ou seja, somente podia dirigir a ordem aqueles que recebecem da Igreja o ministério sacerdotal. Logo, a ordem reveste-se da mesma roupa da Igreja hierárquica. Não que isso seja terrível, mas que na realidade não é próprio do carisma franciscano. Em outras palavras, estamos a séulos vivendo, e agora tentando desfazer o rumo que tomamos.

Dentro desse contexto que nos encontramos hoje vem a nós a reflexão sobre a identidade e missão dos irmãos leigos dentro da ordem franciscana. Um dos primeiros passos dessa reflexão deve ser essa consciência histórica. Estamos ainda em um curso errônio devido a nossas opções como Ordem. Várias experiências nos últimos tempos têm acenado outras possibilidades. Como a criação da Comissão Interfranciscana (OFM - OFMCov - OFMCap) para o estudo da Ordem Franciscana como "Instituto Misto". Essa comissão, em 1997, lançou um estudo sobre a Identidade da Ordem Franciscana no Momento de sua fundação, na tentativa de oficializar um pedido a Santa Sé para que reconheça as ordens franciscanas como mistas. É dentro desse contexto de luzes e sombras que nos encontramos e constituímos nossa identidade e nossa missão. Falar em identidade, mas nessa conjuntura apresenta-se complicado. Somos constituídos a partir da diferenciação, mas isso não quer dizer conflito frequente como observamos na história entre leigos e clérigos.

A diferença deve se estabelecer na unidade em uma constante dialética. Todos nós somos sedentos de significado para nos formar como pessoas. Quando entramos na ordem queríamos ser frades franciscanos. Aos poucos vamos percebendo que os conflitos existem e nos perguntamos sobre nossa vocação ou sobre aquilo que intuímos como nosso caminho.

Para uns, isso acontece de uma forma tranquila, mesmo enfrentando barreiras. Entretanto, outros sofrem por sentirem sempre cobrados em resultados para serem aceitos na ordem. Tal necessidade, no caso dos Irmãos leigos, surge normalmente do embate entre pastoral paroquial e demais atividades.

Em muitos lugares outras formas de atividade evangelizadora não são reconhecidas como trabalho pela fraternidade local. Começa-se assim, uma busca de identidade, pois ser aceito e acolhido naquilo que faço reforça minha identidade ou enfraquece sua formação.

Talvez nesse ponto de nossa reflexão, seja necessário discutir sobre nosso carisma e nossa missão que não é outra coisa a não ser o anúncio do Evangelho pelo testemunho. Assim, a evangelização - que é nosso 'obra' por excelência - "Realiza-se por meio do testemunho e por meio do anúncio do mistério de Cristo..." (CPO III.4)

Não é simplismente por meios de atividades que realizamos nossa missão. Elas fazem parte de nosso dia-a-dia, mas atividades não quer dizer evangelização. A vocação do Irmão leigo deve ser aprofundada nesse sentido.

A evangelização - dentro da pastoral ou em missão - somente se realiza pelo testemunho. Em nosso mundo por vezes confundimos evangelização com propaganda ou markenting. O Evangelho que professamos não é uma marca ou um produto que se vende, mas antes é uma forma de vida.

Todos aqueles que vivem em conformidade com o Cristo, evangelizam. Não há dúvidas que é necessário refletir sobre evangelização, missão e pastoral na construção da identidade do irmão. Refundar nosso carisma como fraternidade proposta por Francisco de Assis, contribuirá para tal dinâmica.

Nos últimos tempos começaram a existir grupos dentro das ordem franciscanas que passaram a dialogar sobre o caráter misto de nosso carisma, mas também percebemos, nos últimos tempos, um retorno ao conservadorismo dentro de nossas instituições, onde a figura do Irmão leigo passa a ser revista como coadjuvante. 

Por isso é urgente a manutenção das reflexões dos Ministros Gerais na carta de 1994 sobre nossas origens. Não podemos perder de vista o que foi inspirado naquela ocasião. Sem tais reflexões ficará difícil tratar sobre a identidade do irmão leigo e sua missão, pois tudo já está pré-estabelecido por um erro de percuso em nossa história.

Outro ponto que deveremos tomar consciência é que nossa missão e identidade não estão mais em locais tradicionais. "Antes os meios clássicos eram Igrejas, capelas, escolas e hospitais, etc. Hoje estão presentes também contextos novos, que exigem respostas e formas também novas". (CPO III, 16).

Hoje estamos no meio popular, nas universidades, na política, nos movimentos sociais, no trabalho com a juventude, etc. O CPO III, citado aqui, é do final da década de 70, e vemos ainda hoje a identidade do Irmão leigo franciscano sendo moldada pela Paróquia. E, ainda hoje o Ministro Geral nos alerta: "Hoje as coisas mudaram radicalmente não só na Igreja e na Ordem, mas também no campo político e econômico". (CC, 2009, p.3).

O protagonismo em nossa missão é importantíssimo nesse caminho. Não é em ambiente de flores que se vai andar, mais é na fadiga de um novo despertar da vida religiosa, que tem como centro o profetismo. Nossa Igreja hoje não é construída circularmente, mas hierarquicamente.

Nossa Ordem também assim se encontra. Com isso confundimos cargos com carismas ou com evangelização. Os ministérios são úteis e necessários, mas eles não podem ser absolutizados em si mesmos. Vemos a senhora exalar mais evangelho que muitos líderes religiosos institucionalizados em sua missão. Não se forma um identidade evangelizadora buscando reconhecimento e cargos, mas se disponibilizando. 

O frade"não se apresenta como superior nem como inferior, mas como irmão. Não se impõe, mas se dispõe". (CPO III, 18). Esteja onde for: na Igreja, na faculdade, nos movimentos sociais, etc. O Irmão leigo deve exalar aquele perfume de Cristo Jesus.

Por fim, percebemos que ao trabalhar sobre a identidade e missão do Irmão leigo franciscano, vemos que toda essa realidade é plástica. Podemos dizer que a identidade é uma não fixação, poderíamos dizer como um aceno que seria uma 'não identidade'. Talvez a palavra melhor que qualifica tal realidade seja 'abertura' ou 'gratuidade'.

Não se faz algo para ter identidade, pois assim agindo já se fixou o que deveria ser dinâmico. Somos em Cristo antes mesmo de sermos. Isso deve constituir nossa missão e nossa identidade. Em outras palavras: Nossa fraternidade franciscano-capuchinha, tendo em si mesma a tensão da fraternidade universal, é chamada, pala sua mesma índole, a testemunhar uma vida transformada, expressão de "relações redimidas". (CC, 2009, p. 5). (Cf CPO VII). É dessa vivência que podemos falar em evangelização e identidade.

Frei Edson Matias, OFM Cap.






Paz e Bem!
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