Sejam Bem-Vindos!

"É uma grandiosíssima calúnia dizer que tenho revoltas contra a Igreja. Eu nunca tive dúvidas sobre a Fé Católica, nunca disse nem escrevi, nem em cartas particulares, nem em jornais, nem em quaisquer outros escritos nenhuma proposição falsa, nem herética, nem duvidosa, nem coisa alguma contra o ensino da Igreja. Eu condeno tudo o que a Santa Igreja condena. Sigo tudo o que ela manda como Deus mesmo. Quem não ouvir e obedecer a Igreja deve ser tido como pagão e publicano. Fora da Igreja não há salvação."
Padre Cícero Romão Batista

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2017




01 – Louvado seja, ó Senhor, pela mãe terra,
que nos acolhe, nos alegra e dá o pão (cf. LS, n.1)
Queremos ser os teus parceiros na tarefa
de “cultivar e bem guardar a criação.”
Da Amazônia até os Pampas,
do Cerrado aos Manguezais,
pela vida e pela paz (2x)
feliz disseste: tudo é belo, tudo é bom!
E pra cuidar a tua obra nos chamaste
a preservar e cultivar tão grande dom (cf. Gn 1-2).
São muitos rostos – da Caatinga ao Pantanal:
Negros e índios, camponeses: gente linda,
lutando juntos por um mundo mais igual.
e, então nos falas, com carinho, ao coração (cf. Os 2.16),
pra nos mostrar que somos povos tão diversos,
mas um só Deus nos faz pulsar o coração.
não com olhares de ganância ou ambição,
o consumismo, o desperdício, a indiferença
se tornam luta, compromisso e proteção (cf LS, n.207).
onde a pessoa, a natureza, a vida, enfim,
possam cantar na mais perfeita sinfonia
ao Criador que faz da terra o seu jardim.


Oração da Campanha da Fraternidade 2017

nós vos louvamos e bendizemos,por vossa infinita bondade.e o entregastes em nossas frágeis mãospara que dele cuidemos com carinho e amor.Casa Comum.Cresça, em nosso imenso Brasil,o desejo e o empenho de cuidar mais e maisda vida das pessoas,e da beleza e riqueza da criação,alimentando o sonho do novo céu e da nova terraque prometestes.Deus, nosso Pai e Senhor,Criastes o universo com sabedoria
Ajudai-nos a ser responsáveis e zelosos pela
Amém!



domingo, 15 de janeiro de 2017

Carta aos pais dos homossexuais

Prezados pais, 

Os seus filhos são um presente de Deus criador a vocês e à humanidade, assim como a vida de todo ser humano. E vocês são para eles um instrumento da Providência divina para tenham vida, afeto, educação e valores. 

Nós chamamos a Deus de ‘Pai’, conforme a nossa tradição judaico-cristã. Usamos a nossa linguagem e experiência humanas para nos dirigirmos a alguém que ultrapassa os limites do mundo e da nossa vivência. Também reconhecemos nele os traços da ternura materna. A experiência do amor incondicional, que os pais proporcionam, é fundamental para o despertar da fé e para uma sadia relação com Deus. 

Ter filhos homossexuais lhes remete à complexa realidade da diversidade sexual. Ao longo da história e em diferentes culturas, esta questão foi tratada de vários modos. 

A nossa tradição de séculos longínquos e recentes já considerou a relação entre pessoas do mesmo sexo uma abominação e uma séria doença, impondo um pesado fardo a gays e lésbicas. No entanto, há mudanças que não podem ser negligenciadas, como a evolução dos direitos humanos, a superação da leitura da Bíblia ao pé da letra e, nos anos 1990, a supressão da homossexualidade da lista de doenças da Organização Mundial de Saúde. Trata-se de uma condição, e não de opção, que alguns carregam por toda a vida. 

A sociedade e as famílias estão por aprender uma nova maneira de lidar com a homoafetividade; a Igreja Católica, que é parte da sociedade, também. Ao se falar da Igreja, freqüentemente se pensa em proibições e condenações. Este não é um ponto de partida adequado. 

A Igreja ensina que ninguém é um mero homo ou heterossexual, mas antes de tudo um ser humano, criatura de Deus e, pela graça divina, filho Seu e destinado à vida eterna. E acrescenta que os homossexuais devem ser tratados com respeito e delicadeza. Deve-se evitar para com eles toda forma de discriminação injusta. 

No nível local, há mudanças importantes acontecendo na Igreja. Em 1997, os bispos católicos norte-americanos escreveram uma bela carta pastoral aos pais dos homossexuais. O título é: Always our children (Sempre Nossos Filhos). Segundo eles, Deus não ama menos uma pessoa por ela ser gay ou lésbica. A Aids não é castigo divino. Deus é muito mais poderoso, mais compassivo e, se for preciso, mais capaz de perdoar do que qualquer pessoa neste mundo. Os bispos exortam os pais a amarem a si mesmos e a não se culparem pela orientação sexual dos filhos, nem por suas escolhas. Os pais de homossexuais não são obrigados a encaminhar seus filhos a terapias de reversão para torná-los heteros. Os pais são encorajados, sim, a lhes demonstrar amor incondicional. E dependendo da situação dos filhos, observam os bispos, o apoio da família é ainda mais necessário. 

 Prezados pais, os seus filhos serão sempre seus filhos. Vocês não fracassaram e nem erraram por causa da orientação sexual deles. O estigma de infâmia e de doença ligado à homossexualidade precisa ser vencido. A aceitação da condição de seus filhos torna a vida de ambos muito melhor e mais feliz. Esta tarefa não é fácil, mas também não é impossível. A prova disso é o depoimento de tantos pais que já conseguiram, ainda que tenham levado alguns anos. A confiança no bom Deus, fonte de todo o bem e do amor incondicional, há de tornar este caminho mais suave e exitoso. 

Cordialmente, 
Pe. Luís Corrêa Lima, S.J. ¹

 Enviada ao Grupo de Pais de Homossexuais (www.gph.org.br), em 3/8/2007. 

Os LGBT, o Papa e a Família


Pe.Luis Correia Lima
“Francisco faz um contundente alerta contra o moralismo que muitas vezes reina em ambientes cristãos e na hierarquia da Igreja Católica, visando fomentar o devido respeito à consciência e à autonomia dos fiéis: “nos custa dar espaço à consciência dos fiéis, que muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites, e são capazes de realizar o seu próprio discernimento perante situações onde se rompem todos os esquemas. Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las” (AL 37). Nesta mesma direção, a formação moral das novas gerações deve se realizar de forma indutiva, de modo que um filho possa chegar a descobrir por si mesmo a importância de determinados valores, princípios e normas, em vez de impô-los como verdades indiscutíveis (AL 264)”, escrever Luís Corrêa Lima, professor no Departamento de Teologia da PUC-Rio, em artigo publicado na revista IHU On-Line desta semana.
Segundo ele, “a questão da homossexualidade é colocada lembrando que a Igreja deve assumir o comportamento de Jesus. Ele se oferece a todos sem exceção, com um amor sem fronteiras”.
Eis o artigo.
1. O pontificado de Francisco e o Sínodo
Francisco iniciou o seu pontificado com um firme propósito de renovação pastoral na Igreja Católica. Ele a convoca a ir às “periferias existenciais”, ao encontro dos que sofrem com as diversas formas de injustiças, conflitos e carências. O papa critica uma Igreja ensimesmada, entrincheirada em “estruturas caducas incapazes de acolhimento” e fechada aos novos caminhos que Deus lhe apresenta (FRANCISCO, 2013a). Esta abertura pastoral contemplou também os LGBT (gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais), que constituem uma população com crescente visibilização. Quando o papa retornou do Brasil a Roma, disse algo que teve muita repercussão: “Se uma pessoa é gay, procura o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para a julgar? [...] Não se devem marginalizar estas pessoas por isso” (FRANCISCO, 2013b). Esta declaração inédita na boca de um papa teve desdobramentos.
Nesse mesmo ano, ele convocou o Sínodo dos Bispos para tratar da família e seus desafios atuais, dando início a um período rico e criativo. A mensagem cristã no campo da sexualidade e da família tem uma grandeza e uma beleza inegáveis, mas também problemas e questionamentos inevitáveis. Em certos pontos, há uma notável disparidade entre o ensinamento da Igreja e vida da maioria dos fiéis.
No primeiro questionário preparatório do Sínodo, enviado a todas as dioceses católicas do mundo, perguntava-se, entre muitas outras coisas, que atenção pastoral se pode dar às pessoas que escolheram viver em uniões do mesmo sexo e, caso adotem crianças, o que fazer para lhes transmitir a fé. Entre 2014 e 2015, foram realizadas duas assembleias com três semanas de duração cada uma. Ocorreram muitos debates e entrevistas, produziram-se amplos relatórios, com uma notável repercussão na mídia. O Sínodo é uma instituição consultiva, bem como os seus relatórios e proposições. Após a sua realização, o papa publica uma exortação pós-sinodal, que é o ensinamento oficial da Igreja a respeito dos temas tratados. Neste caso, é o documento Amoris Laetitia, sobre o amor na família.
Mesmo sendo apenas consultivo, o Sínodo traz indicações muito relevantes sobre a situação eclesial, os consensos e as divergências existentes entre os bispos, que são muito importantes para o discernimento do papa. Os relatórios produzidos desde a convocação deste Sínodo apontaram claramente nesta direção: não mudar a doutrina sobre a família, fundada sobre a união exclusiva e indissolúvel entre um homem e uma mulher, mas ao mesmo tempo acolher sem condenar as pessoas que vivem em outras configurações familiares. O valor deste processo, mais do que os textos, é o debate aberto na Igreja sobre temas de sexualidade e família como nunca se viu nas últimas décadas. Isto ajuda a formar uma opinião pública que favorece a pastoral, a reflexão teológica e a recepção criativa da exortação pós-sinodal.
Na preparação da segunda assembleia, foram enviadas às dioceses perguntas sobre a atenção às famílias que têm “pessoas com tendência homossexual”, e sobre como cuidar destas pessoas à luz do Evangelho e propor-lhes as exigências da vontade de Deus sobre a sua situação. As dioceses alemãs e suíças responderam criticamente. Com base nas ciências humanas e na medicina, a orientação sexual é uma disposição inalterável e não escolhida pelo indivíduo. Por isso, falar simplesmente de “tendência homossexual” provocou irritação e foi percebido como uma expressão discriminatória (CEA, 2015, n. 40). A maior parte dos fieis considera justo o desejo de pessoas homossexuais de terem relacionamentos amorosos e formarem uniões. A exigência de que vivam em abstinência sexual foi considerada injusta e desumana. É inaceitável que homossexuais sejam considerados apenas como destinatários de uma pastoral, vistos como pessoas doentes ou precisando de ajuda. Deseja-se que sejam tratados com respeito e que seja apreciada a sua participação na Igreja. A impossibilidade de qualquer tipo de analogia entre o matrimônio (heterossexual) e a união homossexual, afirmada no primeiro relatório sinodal, não é aceita. Deseja-se que a Igreja reconheça, estime e abençoe as uniões homossexuais, ajudando os membros destas uniões a viverem valores importantes que têm, sim, analogia com o matrimônio (CES, 2015, n. 40).
Os questionários sinodais também foram respondidos por Juan Masiá, jesuíta radicado na Japão e pesquisador de bioética. Para ele, é necessário promover a acolhida de pessoas e de uniões homossexuais, bem como de famílias assim constituídas, na vida cotidiana e sacramental das comunidades eclesiais, sem discriminação. Deve-se reconhecer respeitosamente a legislação civil sobre as uniões homossexuais. É necessária uma revisão da hermenêutica bíblica, moral e teológica sobre a sexualidade à luz das ciências humanas, especialmente sobre a sexualidade pluriforme e as exigências educativas para uma convivência inclusiva. Não se pode afirmar taxativamente como ensinamento da Igreja a impossibilidade de analogia, mesmo remota, entre uniões homossexuais e o desígnio de Deus sobre o matrimônio. Seria presunçoso possuir o conhecimento certo e definitivo deste suposto desígnio divino (MASIÁ, 2015).
Mesmo com estas contribuições questionadoras, prevaleceram no Relatório Final do Sínodo os ensinamentos tradicionais da Igreja sobre a família fundada na união heterossexual e indissolúvel, juntamente com um olhar de misericórdia e uma busca de acolhimento dos que não vivem neste modelo. No encerramento da última assembleia sinodal, o papa fez um balanço bem realista das divergências entre os bispos:
Aquilo que parece normal para um bispo de um continente, pode resultar estranho, quase um escândalo – quase! –, para o bispo doutro continente; aquilo que se considera violação de um direito numa sociedade, pode ser preceito óbvio e intocável noutra; aquilo que para alguns é liberdade de consciência, para outros pode ser só confusão. Na realidade, as culturas são muito diferentes entre si e cada princípio geral [...] se quiser ser observado e aplicado, precisa ser inculturado (FRANCISCO, 2015c).
Muitos bispos, bem como a maioria dos fiéis de suas respectivas dioceses, não concordam com as posições dos alemães, dos suíços e do jesuíta radicado no Japão. As exortações pós-sinodais são elaboradas a partir dos consensos alcançados nas assembleias sinodais. E, neste aspecto, a Exortação Amoris Laetitia não é diferente. O magistério da Igreja em nível universal deve levar em conta os diferentes contextos dos Continentes e dos países. A tarefa de articular convergências e chegar a um denominador comum é complexa e difícil.
papa Bento XVI certa vez relatou a missão que recebeu quando era cardeal, no tempo de João Paulo II, de coordenar o trabalho dos bispos para a elaboração do Catecismo da Igreja Católica. O livro deveria mostrar em que a Igreja hoje crê e como se pode crer razoavelmente. Ele confessa que ficou assustado com esta missão e duvidou que isso fosse exequível. Como é que pessoas vivendo em diferentes Continentes, não apenas geográficos, mas também intelectuais e espirituais, poderiam chegar a um texto com coesão interna e compreensível em todos os Continentes? Ele considera um prodígio o cumprimento desta missão (BENTO XVI, 2012). Diante da complexidade de se obter consensos e ao mesmo tempo de se respeitar as diferenças, o magistério tende a ser cauteloso nas inovações. A evolução das ciências, o senso dos fiéis e a teologia podem ajudar a Igreja a amadurecer seu juízo, mas isto leva tempo e este amadurecimento não é homogêneo. Porém, as igrejas locais, suas iniciativas apostólicas e a reflexão teológica podem avançar mais, criando um ambiente eclesial favorável para mudanças futuras de maior alcance.
2. A Amoris Laetitia (AL)
Exortação do papa sobre a família é uma ampla dissertação, partindo da premissa de que a alegria do amor vivido nas famílias é também o júbilo da Igreja (AL 1). Muitas situações e questões contemporâneas são contempladas, lançando luzes sobre a vida familiar concreta. A Exortação está longe de ser um texto doutrinado abstrato e frio. A grande novidade está na forte sensibilidade pastoral, com matizes muito cuidadosos na aplicação da doutrina. Para o papa, nem todas as discussões doutrinais, morais e pastorais devem ser resolvidas com intervenção do magistério. Naturalmente, é necessária na Igreja uma unidade de doutrina e práxis, mas isto não impede que haja diferentes maneiras de interpretar alguns aspectos da doutrina ou algumas consequências que dela decorrem. Em cada país ou região, pode-se buscar soluções mais inculturadas, atentas às tradições e aos desafios locais (AL 3).
Francisco faz um contundente alerta contra o moralismo que muitas vezes reina em ambientes cristãos e na hierarquia da Igreja Católica, visando fomentar o devido respeito à consciência e à autonomia dos fiéis: “nos custa dar espaço à consciência dos fiéis, que muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites, e são capazes de realizar o seu próprio discernimento perante situações onde se rompem todos os esquemas. Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las” (AL 37). Nesta mesma direção, a formação moral das novas gerações deve se realizar de forma indutiva, de modo que um filho possa chegar a descobrir por si mesmo a importância de determinados valores, princípios e normas, em vez de impô-los como verdades indiscutíveis (AL 264).
Um dos desafios levantados é o das diversas formas de “uma ideologia, genericamente chamada gender (gênero), que nega a diferença e a reciprocidade natural de homem e mulher”. Afirma-se que ela promove uma identidade pessoal e uma intimidade afetiva radicalmente desvinculadas da diversidade biológica entre homem e mulher. Não se deve ignorar que o sexo biológico (sex) e o papel sociocultural do sexo (gender) podem se distinguir, mas não se separar (AL 56).
questão da homossexualidade é colocada lembrando que a Igreja deve assumir o comportamento de Jesus. Ele se oferece a todos sem exceção, com um amor sem fronteiras. Às famílias que têm filhos homossexuais, reafirma-se que cada pessoa, independentemente da própria orientação sexual, deve ser acolhida e respeitada na sua dignidade, evitando-se toda discriminação injusta, agressão e violência. Um respeitoso acompanhamento deve ser assegurado, para que quantos manifestam a tendência homossexual disponham da ajuda necessária para compreender e realizar plenamente a vontade de Deus em sua vida. Porém, os projetos de equiparação das uniões homossexuais ao matrimônio são rejeitados por não haver comparação entre tais uniões e o desígnio divino sobre o matrimônio e a família (AL 250-251). A acolhida de pessoas homossexuais, já ensinada no Catecismo (n.3528), é trazida para o contexto das famílias com filhos homossexuais, onde isto é mais urgente. A oposição feita à equiparação das uniões homossexuais ao matrimônio, majoritariamente expressa no Sínodo, é reiterada na Exortação.
Em toda e qualquer circunstância, perante quem tenha dificuldade de viver plenamente a lei de Deus, deve ressoar o convite para percorrer o caminho do amor. A caridade fraterna é a primeira lei dos cristãos, conforme o mandamento de Jesus: “amai-vos uns aos outros, como eu vos amo” (Jo 15,12). Ela constitui a plenitude da lei (Gal 5,14). Sem diminuir o ideal evangélico, deve-se acompanhar com misericórdia e paciência as possíveis etapas de crescimento das pessoas, que se constroem dia a dia. A misericórdia do Senhor nos incentiva a realizar o bem possível (AL 306 e 308).
Não se pode dizer que todos os que estão numa situação chamada “irregular” vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante. Um pastor não pode estar satisfeito apenas com a aplicação da lei moral aos que vivem nesta situação, como se fossem pedras atiradas contra a vida das pessoas. Por causa de condicionamentos ou de fatores atenuantes, pode-se viver na graça de Deus, amar e também crescer na vida da graça e da caridade, recebendo para isso a ajuda da Igreja que inclui os sacramentos. Por isso, deve-se lembrar aos sacerdotes que o confessionário, onde comumente se ministra o sacramento da penitência, não é uma sala de tortura, mas o lugar da misericórdia do Senhor. E a Eucaristia não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento aos que necessitam (AL 301, 305 e nota 351).
A questão do acesso aos sacramentos pelos que vivem em situação “irregular”, sobretudo os divorciados recasados, foi bastante polêmica desde a convocação do Sínodo. Há décadas que fiéis, pastores e teólogos buscam uma solução para isto. O papa não dá uma solução taxativa e abrangente, mas abre caminho aos pastores para que, no acompanhamento dos fiéis e no respeito ao seu discernimento, possam ministrar-lhes os sacramentos. As considerações sobre os fiéis em situação “irregular” também se aplicam aos que vivem em outras configurações familiares.
3. Em busca de caminhos
Como o próprio papa alertou, as culturas são muito diferentes entre si, e cada princípio geral precisa ser inculturado para ser observado e aplicado, com a devida atenção às tradições e aos desafios locais. E os fiéis, obedecendo à própria consciência, muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites, com discernimento perante situações onde se rompem todos os esquemas. As conferências episcopais trazem contribuições importantes a esta inculturação e à pastoral, que são fruto de reflexões e práticas contextualizadas em diferentes realidades, com suas tradições e desafios.
Exortação anterior do papa FranciscoEvangelii Gaudium, faz menção a um documento dos bispos franceses (EG, nota 60) reafirmando a doutrina da Igreja a respeito do matrimônio. Mas os bispos vão além. Eles repudiam a “homofobia”, empregando explicitamente este termo, e felicitam a evolução do direito que hoje condena toda discriminação e incitação ao ódio em razão da orientação sexual. Eles reconhecem que muitas vezes não é fácil para a pessoa homossexual assumir sua condição, pois os preconceitos são duradouros e as mentalidades só mudam lentamente, inclusive nas comunidades e nas famílias católicas. Estas são chamadas a acolher toda a pessoa como filha de Deus, qualquer que seja a sua situação. E numa união durável entre pessoas do mesmo sexo, para além do aspecto meramente sexual, a Igreja estima o valor da solidariedade, da ligação sincera, da atenção e do cuidado com o outro (CEF, 2012). Mesmo que não se equiparem ao matrimônio, são reconhecidos valores positivos nas uniões homoafetivas.
Outra menção do papa (EG nota 59) é um documento dos bispos norte-americanos sobre o ministério junto a pessoas homossexuais, com diretrizes para a assistência pastoral. Os bispos abordaram a questão do batismo de crianças criadas por uniões do mesmo sexo. Eles não aprovam a adoção de crianças por estas uniões. No entanto, aceitam que elas sejam batizadas se houver o propósito de que sejam educadas na fé da Igreja Católica (USCCB, 2006). Os bispos suíços, por sua vez, trataram da bênção de pessoas homossexuais. Eles afirmam que estas pessoas podem ser abençoadas, mas não a contração de uma união homossexual para não haver semelhança com o matrimônio sacramental (CES, 2002, nº3). Com isto, algumas possibilidades se abrem. No Ritual de Bênçãos da Igreja, por exemplo, há bênção de uma residência, com orações pelos que nela residem, bênção do local de trabalho e bênçãos para diversas circunstâncias. Portanto, pode-se abençoar pessoas homossexuais sem contrariar as normas da Igreja.
No Brasil, os bispos contemplaram este tema num documento sobre a renovação pastoral das paróquias. Eles tratam das novas situações familiares com realismo e abertura, incluindo as uniões do mesmo sexo. Os bispos reconhecem que nas paróquias participam pessoas unidas sem o vínculo sacramental e outras em segunda união. Há também as que vivem sozinhas sustentando os filhos, avós que criam netos e tios que sustentam sobrinhos. Há crianças adotadas por pessoas solteiras ou do mesmo sexo, que vivem em união estável. Eles exortam a Igreja, família de Cristo, a acolher com amor todos os seus filhos. Conservando o ensinamento cristão sobre a família, é necessário usar de misericórdia. Constata-se que muitos se afastaram e continuam se afastando das comunidades porque se sentiram rejeitados, porque a primeira orientação que receberam consistia em proibições e não em viver a fé em meio à dificuldade. Na renovação paroquial, deve haver conversão pastoral para não se esvaziar a Boa Nova anunciada pela Igreja e, ao mesmo tempo, não deixar de se atender às novas situações da vida familiar. “Acolher, orientar e incluir” nas comunidades os que vivem em outras configurações familiares são desafios inadiáveis (CNBB, 2014, nº217-218).
A tarefa de inculturar princípios gerais em diferentes contextos, bem como a de ajudar os fiéis a formarem sua consciência, deve ser assumida pela teologia. O papa exorta os teólogos a prosseguirem no caminho do Concílio Vaticano II, de releitura do Evangelho na perspectiva da cultura contemporânea. Estudar e ensinar teologia deve significar “viver em uma fronteira”, na qual o Evangelho encontra as necessidades das pessoas às quais é anunciado de maneira compreensível e significativa. Deve-se evitar uma teologia que se esgote em disputas acadêmicas ou que contemple a humanidade a partir de um castelo de cristal. Ela deve acompanhar os processos culturais e sociais, especialmente as transições difíceis, assumindo os conflitos que afetam a todos. Os bons teólogos, como os bons pastores, devem ter “cheiro de povo e de rua”, e com sua reflexão derramar “óleo e vinho nas feridas dos homens”, como o bom samaritano do Evangelho (FRANCISCO, 2015a).
Para o papa, o teólogo deve enfrentar o trabalho árduo de distinguir a mensagem de vida da sua forma de transmissão, de seus elementos culturais nos quais em um determinado tempo ela foi codificada. Não fazer este exercício de discernimento leva inevitavelmente a trair o conteúdo da mensagem. Faz com que a Boa Nova, verdadeiro sentido do Evangelho, deixe de ser nova e deixe de ser boa, tornando-se uma palavra estéril, vazia de toda sua força criadora, curadora e ressuscitadora. Assim se coloca em perigo a fé das pessoas de nosso tempo. A doutrina cristã não deve ser um sistema fechado, privado de dinâmicas capazes de gerar interrogações, dúvidas e questionamentos. Pelo contrário, ela tem rosto, corpo e carne, que se chama Jesus Cristo. É sua vida que é oferecida de geração em geração a todos os seres humanos, em todas as partes do mundo (FRANCISCO, 2015b).
A releitura do Evangelho na perspectiva da cultura contemporânea passa pelos estudos de gênero, que envolvem a diferença e a reciprocidade entre homem e mulher. Convém fazer alguns esclarecimentos e considerações. O termo “teoria de gênero”, do qual derivam as suspeitas de “ideologia de gênero”, é uma má tradução do inglês gender theory, pois neste caso theory não significa teoria, mas o conjunto de estudos teóricos. Os estudos de gênero são bastante heterogêneos. Às vezes eles se entrelaçam, mas outras vezes correm em paralelo sem se encontrar. Não há uma teoria unificadora contendo uma explicação abrangente. O que há é um acordo geral em considerar os complexos comportamentos, direta ou indiretamente concernentes à esfera sexual, como fruto de dimensões diferentes, não totalmente independentes e por sua vez complexas: o sexo anatômico, a identidade e o papel de gênero, e a orientação sexual. Não há uma coerência necessária entre o sexo anatômico, a percepção da própria identidade como masculina ou feminina, o desejo e a prática sexual. Na diversidade bio-psíquica de homem e mulher, há indivíduos heterossexuais e homossexuais, bem como indivíduos cisgêneros e transgêneros, que se identificam ou não com o sexo a eles atribuído ao nascerem.
Há uma perspectiva cristã de gênero propondo não renunciar à diferença entre homem e mulher e à sua importância fundamental, que tem raiz no sexo biológico e constitui o arquétipo do qual se origina a humanidade. Que não se pense nos processos sociais e culturais prescindindo in­teiramente do componente bioló­gico, da estrutura genética e neuronal do sujeito humano. Mas também que se evidencie o papel da cultura e das estruturas sociais, reconhecendo-se o mérito dos estudos de gênero em captar a relevância das vivências pessoais na definição da identidade de gênero. Isto contribui para a superação de preconceitos causadores de graves discriminações, que levaram e ainda levam à marginalização dos LGBT (PIANA, 2015).
4. Exemplos
renovação pastoral promovida pelo papa também conta com gestos surpreendentes. No início de 2015, Francisco recebeu em sua casa a visita do transexual espanhol Diego Neria e de sua companheira Macarena. A história de Diego é emblemática da condição transexual, do preconceito feroz e do seu enfrentamento. Ele nasceu com corpo de mulher, mas desde criança sentia-se homem. No Natal, escrevia aos reis magos pedindo como presente tornar-se menino. Ao crescer, resignou-se à sua condição. “Minha prisão era meu próprio corpo, porque não correspondia absolutamente ao que minha alma sentia”, confessa. Diego escondia esta realidade o quanto podia. Sua mãe pediu-lhe que não mudasse o seu corpo enquanto ela vivesse. E ele acatou este desejo até a morte dela. Quando ela morreu, Diego tinha 39 anos. Um ano depois, ele começou o processo transexualizador. Na igreja que frequentava, despertou a indignação das pessoas: “como se atreve a entrar aqui na sua condição? Você não é digno”. Certa vez, chegou a ouvir de um padre em plena rua: “você é filha do diabo”! Mas felizmente teve o apoio do bispo de sua diocese, que lhe reconfortou e lhe animou. Diego se encorajou a escrever ao papa Francisco e a pedir um encontro com ele. O papa o recebeu e o abraçou no Vaticano, na presença da sua companheira. Hoje, Diego Neria é um homem em paz (HERNÁNDEZ, 2015).
Outros encontros com LGBT ocorreram, como uma visita a um presídio na Itália em que o papa teve uma refeição à mesa na companhia de presos transexuais. Nos Estados Unidos, Francisco recebeu na nunciatura apostólica o seu antigo aluno e amigo gayYayo Grassi, e o companheiro dele. Grassi já tinha apresentado o seu companheiro ao papa dois anos antes. Este relacionamento nunca foi problema na amizade entre Grassi e o papa (GRASSI, 2015). Gestos como estes valem mais que mil palavras. Se todas as famílias que têm filhos ou parentes LGBT seguissem o exemplo do papa Francisco, recebendo-os em casa com seus companheiros, muitos problemas e dramas humanos seriam resolvidos.
No Brasil, começam a ser batizadas crianças filhas de uniões homoafetiva. Um batismo de gêmeos (na foto abaixo) ocorreu no Santuário do Cristo Redentor no Corcovado, Rio de Janeiro, em 2014. O padre Omar Raposo, que fez a celebração, declarou: “O batismo é para todos. A Igreja não nega o batismo a ninguém. Ao contrário, é mandato de Cristo que todos sejam batizados” (MACEDO, 2014). Assim a Igreja assume o comportamento de Jesus Cristo, que se oferece a todos sem exceção, com um amor sem fronteiras alcançando os que vivem em outras configurações familiares. A expressão maior deste amor acolhedor e inclusivo é o batismo das crianças.
5. Considerações finais
pontificado de Francisco iniciou com um firme propósito de renovação pastoral da Igreja, voltando-se às periferias existenciais, criticando com consistência uma Igreja ensimesmada, entrincheirada em estruturas caducas incapazes de acolhimento e fechada aos novos caminhos que Deus lhe apresenta. O Sínodo dos Bispos sobre a família, com perguntas questionadoras, e a Exortação Pós-sinodal inovadora são passos muito importantes neste caminho. Cabe aos fiéis terem a coragem de obedecer à própria consciência e responder sem medo ao Evangelho em situações onde os esquemas se rompem. Cabe aos pastores buscarem criativamente as formas de inculturação dos princípios gerais, atentos às tradições e aos desafios locais. Cabe aos teólogos viverem na fronteira, assumindo com vigor os conflitos que afetam a todos.
O caminho da renovação pastoral é longo pois muitas estruturas caducas estão fortemente arraigadas na mente e na prática de várias comunidades eclesiais, em muitos ambientes. Certa vez, o papa deu um conselho precioso: “é melhor ficar longe dos sacerdotes rígidos, eles mordem” (FRANCISCO, 2015d). Não são só os sacerdotes rígidos que causam dano a tantas pessoas, mas também alguns movimentos religiosos e fiéis rigoristas. O papa Bento XVI já havia afirmado com lucidez que o cristianismo não é um conjunto de proibições, mas uma opção positiva. E acrescentou que é muito importante evidenciar isso novamente, porque essa consciência hoje quase desapareceu completamente (BENTO XVI, 2006). É muito bom que os papas reconheçam esse problema, pois há no cristianismo uma tradição multissecular de insistência na proibição, no pecado, na culpa, na ameaça de condenação e no medo. A historiografia fala de uma “pastoral do medo”, que com veemência culpabiliza as pessoas e as ameaça de condenação eterna para obter a sua conversão. Isto não se restringe ao passado, mas inunda o presente e devasta muitas pessoas, sobretudo os LGBT.
O ponto de partida do ensinamento cristão deve ser sempre o seu conteúdo positivo que é Boa Nova. O testemunho e a pregação de Francisco são primorosos quanto a isto, incluindo a Amoris Laetitia que começa com a alegria do amor vivido nas famílias. Mas os frutos são virão se as práticas e a pregações rigoristas forem neutralizadas, se todos forem devidamente alertados a ficarem longe delas. Os que sintonizam com o papa, onde quer que estejam, têm um papel imprescindível nesta grandiosa tarefa. A alegria do amor familiar deve inundar também os que vivem nas diversas configurações familiares.

PADRE JESUÍTA FALA SOBRE HOMOSSEXUALIDADE



Pe.Luis Correia Lima 

domingo, 1 de janeiro de 2017

A IGREJA CATÓLICA E AS UNIÕES HOMOAFETIVAS





Pe. Luís Corrêa Lima

 No mundo católico, chama à atenção a presença de um discurso oficial e articulado contrário às práticas homoeróticas, ao casamento gay e às principais bandeiras dos movimentos LGBT. Para o Catecismo da Igreja Católica, os ‘atos de homossexualidade’ são contrários à lei natural, intrinsecamente desordenados, e em nenhum caso podem ser aprovados. Evocam-se as Sagradas Escrituras que os consideram graves depravações. As pessoas homossexuais devem ser acolhidas e nunca discriminadas injustamente, mas são chamadas a viver a continência sexual permanente2 . Este ensinamento de ampla difusão tem raízes na milenar tradição judaico-cristã, na qual a Igreja está alicerçada. No judaísmo antigo, acreditava-se que o homem e a mulher haviam sido criados um para o outro, para se unirem e procriarem, e o homoerotismo era considerado uma abominação. Israel devia se distinguir das outras nações de várias maneiras, entre elas, proibindo o homoerotismo. O cristianismo herdou essa visão antropológica com sua interdição. Por muitos séculos, as relações entre pessoas do mesmo sexo foram consideradas como o pecado de Sodoma: a tentativa de estupro feita aos hóspedes do patriarca Ló, que resultou no castigo divino destruidor (Gênesis, cap.19). Até o início do século 19, em muitos países ocidentais a lei civil classificava a ‘sodomia’ como um crime grave, sujeito a pena de morte. O tribunal eclesiástico julgava os acusados, e os culpados eram entregues ao poder civil. A doutrina da Igreja corresponde a uma longa sedimentação, de muitos séculos, que hoje se defronta a cultura moderna em comunidades espalhadas por todo o mundo. Há poucos anos, a Cúria Romana emitiu um documento específico contrário ao reconhecimento legal da união entre pessoas do mesmo sexo. Os termos são bem duros: tais uniões são ‘nocivas’ a um reto progresso da sociedade humana; deve haver oposição clara e incisiva ao seu reconhecimento legal, sobretudo dos políticos católicos; não se deve colaborar para que este reconhecimento seja colocado em prática e, quando for possível, recorrer-se-á à objeção de consciência. Não se devem inserir crianças nas uniões homossexuais através da adoção, pois isto significa praticar a violência contra elas, aproveitando-se do seu estado de fraqueza para introduzilas em ambientes que não favorecem o seu pleno desenvolvimento humano3 . Este discurso tem ampla repercussão na mídia, mas não diz tudo sobre a realidade da Igreja Católica e sua maneira de lidar com a homoafetividade. O mundo católico abrange multidões de fiéis espalhados pelo Planeta, uma considerável heterogeneidade cultural e ideológica, e uma ampla diversidade de níveis e de ambientes eclesiais. Além das posições doutrinárias conservadoras do papa e da Cúria Romana, há importantes elementos e nuances que não devem ser negligenciadas. Além disso, deve-se considerar a atuação dos bispos e de suas conferências em muitos países, os teólogos e suas reflexões, as comunidades paroquiais e suas as iniciativas pastorais e, sobretudo, a consciência dos fiéis, à qual se atribui um papel fundamental e insubstituível nas decisões morais. Tudo isto forma um importante tecido eclesial permeável à sociedade moderna, onde se operam adaptações e negociações, que merecem ser analisadas. Na Holanda, por exemplo, um país com tradição de aceitação social da homossexualidade, há uma flexibilização da doutrina católica em questões morais e uma adaptação à prática. Já nos anos 1960, antes das paradas gays, o Instituto Pastoral da Holanda formulou diretrizes bastante inovadoras para o trabalho com homossexuais: 1) em hipótese alguma pode-se romper uma amizade existente; 2) o matrimônio heterossexual não pode ser solução e deve ser desaconselhado; 3) não se deve esquecer que a continência não é uma exigência tão evidente; na realidade ela é observada só esporadicamente; 4) parece recomendável ajudar o homossexual a construir uma amizade firme; 5) no acompanhamento de amizades homossexuais parece importante insistir sobretudo na fidelidade4 . Atualmente naquele país, segundo uma pesquisa da Universidade de Utrecht, oitenta por cento do clero católico celebra uniões de pessoas do mesmo sexo, apesar da proibição eclesiástica. E metade do clero celebra estas uniões dentro de templos católicos5 . Nos Estados Unidos, o movimento gay gerou uma constelação de grupos distintos. Os protestos de Stonewall, em 1969, deram origens às atuais paradas gays. Naquele mesmo ano, um segmento católico deu origem ao Dignity, atualmente Dignityusa – lesbian, gay, bisexual & transgender catholics. Este grupo é bem consolidado institucionalmente, com núcleos em todo o país6 . Nos anos 1970, este grupo teve apoio da hierarquia em vários lugares. No entanto, houve um endurecimento na década seguinte. O Dignity foi proibido de se reunir em instituições ou templos católicos. Daí em diante, os seus membros se reúnem em templos protestantes. A opinião pública católica é crescentemente favorável às bandeiras LGBT. No Canadá, onde há dez províncias, a maior adesão ao casamento gay é na Província de Quebec, coincidentemente a que tem a maior população católica. Na Espanha, onde a população é majoritariamente católica, mais de dois terços é a favor desta união. No Brasil, uma pesquisa revelou que 42% da população é a favor do casamento gay. Entre os católicos brasileiros, a proporção sobe para 46%. Ou seja, quase metade deste segmento religioso7 . Diante da disparidade entre o discurso doutrinal do Vaticano e as convicções dos fiéis, podese dizer que o mundo católico está cindido e desgovernado? Na verdade, trata-se da própria natureza da Igreja. Ela tem uma tradição milenar com raízes na Antiguidade judaica e no mundo greco-romano, mas, ao mesmo tempo, está inserida na modernidade em diversos contextos com os quais interage intensamente, sobretudo em nível local. A modernidade penetrou com força na Igreja Católica através do Concílio Vaticano 2º, realizado entre 1962 e 1965. Este Concílio reconheceu a liberdade de consciência, que é o direito de a pessoa agir segundo a norma reta da sua consciência; e o dever de não agir contra ela. Nela está o ‘sacrário da pessoa’, onde Deus está presente e se manifesta; nela está a intimidade secreta onde a pessoa se encontra a sós com Deus e ouve sua voz. Pela fidelidade à consciência, os cristãos estão unidos aos outros homens no dever de buscar a verdade, e de nela resolver os problemas morais que surgem na vida individual e social8 . Nenhuma palavra externa substitui o juízo e a reflexão da própria consciência. O Catecismo incorpora este ensinamento do Concílio e cita o cardeal Newman, importante teólogo do século 19: A consciência “é a mensageira d'Aquele que, tanto no mundo da natureza como no da graça, nos fala veladamente, nos instrui e nos governa. A consciência é o primeiro de todos os vigários de Cristo9 ”. No mundo católico comumente se diz que o papa é o vigário de Cristo na Terra, o seu legítimo representante. Mas aqui se afirma que, antes dele e de qualquer outro, a própria consciência representa Cristo para o fiel. Na Igreja, há um ofício de ensinar com autoridade a serviço da palavra de Deus: o magistério, que é exercido pelo papa e pelos bispos. Mas este ofício não substitui a consciência dos fiéis, nem está acima dela. Outros elementos da modernidade foram assimilados pela Igreja no Concílio, como a autonomia da ciência e a separação entre Igreja e Estado. As chamadas ‘realidades terrenas’ incluem as coisas criadas e as sociedades com suas leis e valores próprios, que o homem gradualmente descobre, utiliza e organiza. É perfeitamente legítimo exigir a autonomia destas realidades, bem como deplorar as atitudes de cristãos que não reconheceram suficientemente a legítima autonomia da ciência, levando muitos a pensar que fé e ciência eram incompatíveis. Como exemplo deste não reconhecimento, é mencionado o célebre caso Galileu Galilei10 . O diálogo da Igreja Católica com outras confissões cristãs se faz em novas bases, onde se reconhece uma hierarquia de conteúdos na doutrina católica, segundo o nexo destes conteúdos com o fundamento da fé cristã. É a chamada ‘hierarquia de verdades’11. Alguns pontos são mais importantes, porque estão relacionados com o núcleo da fé. Outros, por sua vez, são menos importantes porque não comprometem este núcleo. As divergências entre os que crêem não devem ser todas colocadas no mesmo nível importância, como se todas elas fossem muralhas intransponíveis. Com isto se pode construir uma base comum para o diálogo e a cooperação. Esta hierarquia doutrinária também convém em outros âmbitos externos da Igreja, bem como no âmbito interno. Nas relações com a sociedade contemporânea, há que se lidar com a diversidade ideológica inerente à modernidade. As divergências não devem ser abominadas. Internamente, por sua vez, nem todo o dissenso exclui da Igreja o fiel. O Concílio exorta que se reconheça toda a diversidade legítima, aliada à estima recíproca, em vista de um diálogo cada vez mais fecundo. O que une os fiéis entre si deve ser mais forte do que aquilo que os divide. Haja unidade no necessário, liberdade na dúvida, e em tudo a caridade12 . A modernidade também propicia e fomenta novas leituras da Bíblia, através do método histórico-crítico, que situa os textos sagrados em seus respectivos ambientes sócio-culturais, com seus modos de expressão próprios. Este método rejeita radicalmente a leitura literal e abre caminhos novos de compreensão. A Igreja assimilou esta nova abordagem em meados do século 20 – inicialmente com Pio 12 e mais profundamente com o Concílio - ao mesmo tempo em que procurou harmonizá-la com os conteúdos da fé. Para a Igreja hoje, a revelação divina testemunhada na Bíblia é proposta e expressa de modos diversos, através de ‘gêneros literários’ históricos, proféticos, poéticos ou outros. Importa que o intérprete busque o sentido que os autores sagrados em determinadas circunstâncias, segundo as condições do seu tempo e da sua cultura, pretenderam exprimir servindo-se dos gêneros literários então usados. Para se entender corretamente o que os autores sagrados quiseram afirmar, devem-se levar em conta os modos próprios de sentir, dizer ou narrar em uso no tempo deles, como também os modos que se empregavam frequentemente nas relações entre os homens de então13 . Os elementos da modernidade aceitos pela Igreja – a centralidade da consciência, a autonomia da sociedade civil com a separação entre Igreja e Estado, a autonomia da ciência e a crítica bíblica – provocam dentro dela um dinamismo que desestabiliza muitas certezas tradicionais. Os tempos idos da cristandade, quando havia uma forte hegemonia da Igreja na sociedade, eram também tempos de muitas certezas imutáveis. Várias delas foram abandonadas; outras são fortemente questionadas. Não é mais possível se evitar questionamentos maiores, inclusive no campo da sexualidade. Não cabe à Igreja definir se a homossexualidade é ou não uma doença, se esta orientação sexual é ou não reversível, se os filhos de casais gays são ou não prejudicados emocionalmente por não serem filhos de casais heterossexuais, se a membrana da camisinha é ou não permeável ao vírus da aids, ou se a sua distribuição é ou não eficaz na prevenção do HIV. Qualquer pronunciamento da Igreja neste campo só tem validade com o respaldo das ciências e dos saberes seculares. Mesmo a lei natural não deve ser apresentada como um código detalhado, imutável e universal promulgado pela autoridade eclesiástica. Trata-se, sim, de uma racionalidade presente na natureza, obra do Criador, e compreensível pela reta razão em diferentes culturas e contextos. Bento 16 afirmou certa vez que o entendimento da lei natural e da responsabilidade humana progride quando há um “diálogo fecundo entre crentes e não-crentes; entre filósofos, juristas e homens de ciência”. Desta maneira, prossegue ele, pode-se oferecer também aos legisladores um material precioso para a vida pessoal e social14. O próprio o crente, portanto, deve ser um interlocutor deste diálogo. Os textos bíblicos evocados contra o homoerotismo não podem mais ser abstraídos da antropologia judaico-cristã da antiguidade, que supunha uma heterossexualidade universal. Usar as escrituras desta maneira, sem levar em conta o horizonte antropológico do seu tempo, é descontextualizá-las indevidamente. Quando Ratzinger foi eleito papa, esperava-se um endurecimento das posições conservadoras. No entanto, isto não aconteceu. Em seu pontificado, ele defende com veemência o uso do termo ‘matrimônio’ reservado à união entre homem e mulher, e se opõe fortemente ao ‘matrimônio’ gay. Porém, quanto à união civil homoafetiva, a oposição do papa não é taxativa e nem encerra o debate. A postura é diferente dos documentos assinados por Ratzinger na Cúria Romana quando era cardeal, sob as ordens do seu antecessor. O papa João Paulo 2º considerava a união civil de homossexuais uma grave de violação da lei de Deus e uma manifestação da astuciosa ‘ideologia do mal'15. Bento 16, não mais sob as ordens de seu antecessor, limita-se a restrições moderadas. Alguns anos atrás, os bispos católicos norte-americanos escreveram uma bela carta pastoral aos pais dos homossexuais. O título é: Always Our Children (Sempre Nossos Filhos). Para eles, Deus não ama menos uma pessoa por ela ser gay ou lésbica. A aids não é castigo divino. Deus é muito mais poderoso, mais compassivo e, se for preciso, mais capaz de perdoar do que qualquer pessoa neste mundo. Os bispos exortam os pais a amarem a si mesmos e a não se culparem pela orientação sexual de seus filhos, nem por suas escolhas. Os pais não são obrigados a encaminhar seus filhos a terapias de reversão para torná-los héteros. Os pais são encorajados, sim, a lhes demonstrar amor incondicional. E dependendo da situação dos filhos, observam os bispos, o apoio da família é ainda mais necessário16 . Um novo pronunciamento foi feito pelos bispos. No trabalho pastoral com pessoas homossexuais, os ministros religiosos são convidados a ouvir suas experiências, suas necessidades e suas esperanças. Assim se manifesta o respeito à dignidade inata e à consciência do outro. Gays e lésbicas podem revelar a sua condição a familiares e amigos e crescerem na vida cristã. Isto significa ‘sair do armário’ sem sair da Igreja. Os bispos norte-americanos não aprovam a adoção de crianças por casais do mesmo sexo. No entanto, aceitam o batismo de crianças sob a responsabilidade destes casais, se houver o propósito de que elas sejam educadas na religião católica17 . Muitas escolas católicas nos Estados Unidos colaboram recebendo estas crianças. Em diversas regiões, elas convivem com outras crianças sem problemas ou reclamações dos pais. As mudanças na sociedade contribuem para a boa aceitação e convivência. De certa maneira, a homoparentalidade abre caminho na Igreja. Em 2008, o presidente da Conferência dos Bispos da Alemanha, Robert Zollitsch, declarouse a favor da união civil dos homossexuais. Ele afirmou que se trata de uma questão da própria realidade social: se há pessoas com esta orientação, o Estado deve adotar uma legislação correspondente18. Convém observar que um presidente de uma conferência episcopal não faria uma declaração dessas sem o respaldo interno dos outros bispos, e sem um amplo consenso da Igreja local. E isto se dá justamente na terra natal do papa, a Alemanha Na Itália, um grupo de jesuítas apóia a união civil homoafetiva. A prestigiosa revista da ordem, Aggiornamenti sociali, publicou o estudo de um núcleo católico de bioética com sede em Milão. Ele defende que a convivência entre duas pessoas do mesmo sexo é benéfica para a vida social. Em uma relação duradoura, devem-se reconhecer direitos e deveres a quem oferece cuidado e sustento ao companheiro, independentemente de que a intimidade entre eles seja sexual ou somente afetiva. E ao político católico, acrescenta o estudo, é justificável votar a favor deste reconhecimento19 . No final de 2008, a ONU debateu uma proposta encabeçada pela França de descriminalização da homossexualidade em todo mundo. Nações ocidentais se posicionaram a favor; e nações islâmicas, contra. A delegação da Santa Sé manifestou-se pela condenação de todas as formas de violência contra pessoas homossexuais. E urgiu as nações a tomarem as medidas necessárias para pôr fim a todas as penas criminais contra elas. Para a Igreja, os atos sexuais livres entre pessoas adultas não devem ser considerados delito pela autoridade civil. Mas houve também divergências. O Vaticano fez ressalvas à proposta francesa por considerar que havia risco para quem não colocasse exatamente no mesmo nível toda orientação sexual. Haveria, por exemplo, um instrumento de pressão contra legislações que privilegiassem o matrimônio entre um homem e uma mulher, em detrimento de uniões gays20 . De qualquer maneira, defender a descriminalização universal das relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo, implica que elas não são uma ameaça para a humanidade, apesar das restrições morais que possam existir. Isto representa uma enorme mudança em relação ao passado, quando se julgava e se punia o crime de sodomia. Na Argentina tramita no parlamento um projeto de lei de casamento gay. Um grupo de 12 padres católicos de Córdoba fez um manifesto a favor deste projeto21. Diante da possibilidade de uma lei permitindo que pessoas do mesmo sexo vivam uma experiência profunda do amor e da sexualidade, eles afirmam que a sua aprovação é colocar-se no caminho do Evangelho de Jesus, revelador do rosto amoroso de Deus. A ‘Igreja oficial’ e seus pontos de vista nem sempre ou necessariamente coincidiriam com o Evangelho. Para este grupo, um legislador pode professar profundamente sua fé cristã e católica e, ao mesmo tempo, com total liberdade de consciência, pensar e agir diferentemente do que propõe a hierarquia eclesiástica. Na Igreja Católica não haveria um ‘pensamento único’ e, sim, lugar para a diversidade e para a pluralidade. Além do mais, um legislador não legisla somente para a comunidade católica, mas para todos os cidadãos. Mesmo que este grupo de sacerdotes não seja numeroso, ele representa o pensamento de inúmeros fiéis, uma opinião pública católica crescentemente favorável à cidadania LGBT. Há, portanto, um discurso e uma prática contra-hegemônicos na Igreja Católica a favor dos gays e suas bandeiras. E na alta hierarquia chega a haver algo nesta direção, como os bispos alemães e americanos e a delegação da Santa Sé. Nunca antes na história da Igreja tantas vozes se posicionaram desta maneira. Que consequências isto terá? É difícil prever, mas há uma forte incidência da questão gay na vida eclesial, no inevitável contexto da modernidade. No Brasil, há um crescente reconhecimento dos direitos decorrentes de uniões homoafetivas. Isto se dá por decisões judiciais e por política trabalhista de órgãos públicos e de empresas em favor de seus funcionários. Mas não há lei federal reconhecendo uniões entre homossexuais, por causa da forte resistência do Congresso Nacional em aprovar qualquer legislação de cidadania LGBT. Há quinze anos tramita um projeto de união civil, que já teve modificações. Ele sofre veemente oposição de parlamentares cristãos, de diversas igrejas. A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) se posicionou contra o ‘casamento gay’ e contra a adoção de crianças por casais homoafetivos22. Mas isto não significa ser contra a união civil destes casais, onde se reconhecem direitos decorrentes de sua convivência. Um bispo brasileiro se manifestou favoravelmente neste sentido23. No entanto poucos fazem esta distinção, tanto dentro da Igreja quanto fora. Prevalece no senso comum a convicção de que a Igreja é contra a união gay, e contra tudo o que lhe diz respeito. Este senso comum equivocado prejudica o diálogo entre o mundo gay e a Igreja, e dificulta articulações possíveis no âmbito da política. Certa vez um documento da Igreja expressou a convicção de que nenhum ser humano é mero homo ou heterossexual. Ele é acima de tudo criatura de Deus e destinatário de Sua graça, que o torna filho Seu e herdeiro da vida eterna24. Esta convicção estruturante, ainda que cercada de restrições, permite que se reconheça a dignidade e a grandeza, humana e religiosa, de toda pessoa gay. A tradição judaico-cristã, tantas vezes homofóbica e duramente opressora, pode também ser ressignificada em favor da cidadania da população LGBT.

FONTE: Diversidade Sexual

domingo, 6 de março de 2016

CF ECUMÊNICA


Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016

Texto-Base e Cartaz

Você já pode adquirir o texto-base da Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE) de 2016 (www.edicoescnbb.com.br/cfe2016), que tem por objetivo o debate de questões relativas ao saneamento básico, desenvolvimento, saúde integral e qualidade de vida aos cidadãos. O tema escolhido para a Campanha é “Casa comum, nossa responsabilidade”, e o lema, “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5.24).
 
A reflexão da CEF 2016 será a partir de um problema que afeta o meio ambiente e a vida de todos os seres vivos, que é a fragilidade e, em alguns lugares, a ausência dos serviços de saneamento básico em nosso país. O texto-base está organizado em cinco partes, a partir do método “ver, julgar e agir”. Ao final, são apresentados os objetivos permanentes da Campanha, os temas anteriores e os gestos concretos previstos durante a Campanha de 2016.
 
Internacionalização
 
Uma das novidades da CFE é a parceria com a Misereor – entidade episcopal da Igreja Católica na Alemanha que trabalha na cooperação para o desenvolvimento na Ásia, África e América Latina. Também integram a Comissão da Campanha de 2016: Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR), Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), Igreja Presbiteriana Unida (IPU), Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia (ISOA), Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (Ceseep), Visão Mundial, Aliança de Batistas do Brasil.
 
- Acesse o site da CFE em português e alemãowww.jugendaktion.de/pt-br
  
Clique na imagem abaixo para ver o vídeo oficial da Campanha:
 
video cfe 2016
 
 
 
Materiais de apoio (gratuitos e pagos):
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1) Subsídios comercializados pelas Edições CNBB:
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2) CD da CFE, disponível no site da Paulus:
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3) Materiais para trabalhar com crianças: 
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Quer mais informações sobre a Campanha?
Encaminhe um e-mail para: cfecumenica2016@gmail.com


Palavra do presidente do CONIC, dom Flávio Irala, sobre a CFE 2016
 
"Com alegria e animados pelo Espírito, cujo agir consiste em unir, chamar, congregar, superar barreiras e unir pessoas de boa vontade ao redor de objetivos comuns, apresentamos a Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2016, com o tema “Casa Comum: nossa responsabilidade” e o lema “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5,24).
 
Pela quarta vez, a Campanha da Fraternidade é realizada de forma ecumênica. Nesse ano, tem como objetivo geral “assegurar o direito ao saneamento básico para todas as pessoas e empenharmo-nos, à luz da fé, por políticas públicas e atitudes responsáveis que garantam a integridade e o futuro de nossa Casa Comum”.
 
As reflexões sobre o saneamento básico contidas no texto-base demonstram que esse é um direito humano fundamental e, como todos os outros direitos, requer a união de esforços entre sociedade civil e poder público no planejamento e na prestação de serviços e de cuidados.
 
Desejamos que o texto-base contribua para mobilizar e criar espaços ecumênicos de comprometimento com a Casa Comum.
 
Nosso agradecimento especial a todas as pessoas que contribuíram com a redação desse trabalho, que reflete a soma de muitas experiências e compromissos. O texto foi elaborado em mutirão ecumênico. Todas as pessoas que colaboraram desde as primeiras palavras até a última revisão, colocaram a serviço do testemunho da unidade cristã seus dons e conhecimentos.
 
Acreditamos que um mundo de justiça e direito precisa ser construído assim: coletivamente, somando as criatividades, os talentos e as experiências em benefício do bem comum.
 
Que essa CFE fortaleça a fé e a esperança de uma Casa Comum, em que o direito brote como fonte e a justiça qual riacho que não seca!"
 
Dom Flávio Irala
Presidente do CONIC

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Cardeal de Bombaim aos LGBTs: “A Igreja abraça vocês, quer vocês, precisa de vocês”

O Cardeal Oswald Gracias é o arcebispo de Bombaim, presidente da Conferência Nacional dos Bispos Católicos da Índia e membro do conselho dos nove cardeais assessores do Papa Francisco. Nos últimos anos, ele surgiu como um dos principais promotores internacionais para que haja um melhor trabalho civil e pastoral à comunidade LGBT. Ele foi o único líder na Índia que se opôs a uma iniciativa de criminalização das pessoas LGBTs, instou os seus sacerdotes a serem mais sensíveis no emprego da linguagem em se tratando das pessoas desta comunidade, defendeu abertamente um melhor acompanhamento pastoral durante o último Sínodo Extraordinário dos Bispos no ano passado e se encontrou com o Chair of Quest, grupo LGBT católico britânico.
Gracias está em Roma participando do Sínodo, e eu tive o prazer de me sentar com ele para conduzir uma breve entrevista no domingo (18 de outubro). Nela falamos sobre o trabalho pastoral da Igreja junto à comunidade LGBT, leis de criminalização, doutrina e linguagem da Igreja, bem como sobre a sua caminhada pessoal.
A entrevista é de Francis DeBernardo, publicado por New Ways Ministry, 19-10-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
Eis a entrevista.
Nos últimos anos, o senhor tem feito gestos muito positivos no que diz respeito às pessoas LGBTs. De que forma a sua compreensão sobre esta comunidade evoluiu e como isso aconteceu?
Inicialmente, o meu trabalho começou envolvendo-me na área do Direito Civil concernente à proibição da homossexualidade. Achei que uma legislação assim não era certa – pondo indiscriminadamente todo mundo na mesma categoria. Então, eu me pronunciei, dizendo que a Igreja não estava a favor.
O que fiz acabou sendo uma surpresa para muitas pessoas, por causa do que eles pensam que a Igreja ensina. É preciso fazer uma distinção entre uma pessoa, que faz parte absolutamente da Igreja, que merece todo o nosso cuidado, e que ela pode ter uma orientação [homossexual]. Não se pode colocar estas pessoas atrás das grades, ou dizer que nós não temos nenhuma responsabilidade aqui.
A lei foi derrubada, mas agora ela já está de volta.
Posteriormente, acabei conhecendo algumas pessoas também. Percebi a bondade delas, coisa que muitas pessoas não enxergam. Muitas vezes estas pessoas são retratadas de uma forma negativa. A minha opinião é que a Igreja tem de ser acolhedora, inclusiva, e cuidar de todas as pessoas. Os nossos princípios morais estão claros. Deveria nos preocupar o fato de estarmos rompendo o nosso código moral ou que os princípios da Igreja estão sendo rompidos. O catecismo tem dito também que estas pessoas precisam ser acompanhadas. Algumas pessoas dizem que estamos indo longe demais.
De certa forma, acolhê-los é uma postura bem católica. Não ser acolhedor é errado. Não ser acolhedor é o mesmo que não ser católico. Esta não seria a atitude de Cristo, com certeza. Temos de ser bastante compassivos, compreensivos e abertos às pessoas.
Quando li sobre a sua posição na questão do direito civil, vi que o senhor foi o único líder religioso da Índia a se opor à criminalização. Como encontrou coragem para tanta ousadia?
Eu estava convencido. Eu acho que, aos poucos, os demais irão ver o que estou dizendo. O que digo está tão claro para mim. É isso o que a Igreja iria querer. Estou convencido de que, no final, esta legislação não será aprovada, e a descriminalização se sairá vencedora. É uma questão de tempo.
O senhor recebeu críticas pela postura assumida?
Não muitas. Houve algumas. Houve alguns teólogos que disseram discordar de mim. Mas aí era uma questão intelectual, e eu fiquei feliz com isso porque o debate me permitiu dar melhores contornos aos meus pensamentos sobre o assunto. Não houve, porém, nenhuma campanha contra o que eu disse.
Nos EUA, temos muitas paróquias que criaram ministérios para a comunidade LGBT. Que conselho o senhor daria a essas paróquias e pastores que trabalham com as pessoas LGBT?
Honestamente, acho que elas sabem mais sobre isso do que eu. A partir da experiência, você sempre aprender como fazer as coisas pastoralmente. Na Índia, a homossexualidade não saiu por completo do armário. A atmosfera não é tão aberta na sociedade civil a ponto de ser possível ver pessoas vindo, abertamente, e se declarar como pertencentes à comunidade LGBT. Na verdade, uma associação formada por gays perguntou-me se eu rezaria a missa para ela. Eu disse: “Sim, sem dúvidas.Não há por que eu negar”. Disse-lhes também que deveriam ter em mente que eles, de repente, estariam assumindo suas orientações abertamente. Para mim, não há problema algum. 
 
O senhor percebe algum dom que as pessoas lésbicas ou gays trazem à Igreja?
Eu não me encontrei com elas o suficiente para poder fazer uma generalização. Mas as pessoas que conheci muito me impressionaram por sua sinceridade, querendo ajudar a Igreja, por sua generosidade. Isso seria algo específico destas pessoas ou simplesmente acontece de ser assim por causa da pessoa que elas são? Então, não posso generalizar.
Mas todos os que conheci são boas pessoas, que querem se dedicar ao trabalho pela Igreja. Quando digo “pela Igreja”, quero dizer: “pelas pessoas, via instituições de caridade da Igreja”.
Vamos falar sobre o Sínodo. O senhor acha que haverá algum progresso no tocante a questões envolvendo a comunidade LGBT na edição deste ano?
Posso ver que há uma grande hesitação por parte dos padres sinodais a tocarem, de fato, neste tópico. Dessa forma, posso ver que o Sínodo irá provavelmente dizer que nós devemos acolhê-los em nossos trabalhos pastorais. Algo muito gentil e limitado, ao mesmo tempo. Não espero que nós possamos dizer muito além disso.
O senhor acha que seria possível que o Sínodo publique uma declaração sobre a criminalização, visto que ela está ocorrendo ao redor do mundo?
Tenho confiança aqui. Uma das críticas ao Sínodo é que ele é demais eurocrêntico, e nós estamos cuidadosamente prestando atenção nisso. A esta altura, é difícil começar mudar o foco como um todo. Estou dizendo isso porque sei que a África é muito sensível a esta questão. Há uma postura norte-americana e europeia muito clara na questão da homossexualidade. Como nós, enquanto Igreja, enquanto Igreja universal, podemos compreender e aceitar ideias e opiniões que poderão se alterar no futuro é algo que precisamos ponderar. Isso é realmente central.
E quanto à linguagem? Houve relatos de que alguns bispos estão propondo livrar-se de palavras como “desordem” e “mal” em relação às pessoas da comunidade LGBT…
Isso precisa ser pensado e conduzido de forma muito cuidadosa. Fico feliz que você trouxe esse assunto. Acho que deveria haver uma aceitação em dizermos: “Vamos empregar uma linguagem mais cuidadosa, que não seja muito julgadora”. A resposta a esta visão é: “Você a está tolerando?” Eu pessoalmente acho que [uma mudança na linguagem] nos ajudaria a termos uma visão mais clara e objetiva sobre o assunto.
Teria sido útil aos bispos ver lésbicas e gays falando ao Sínodo da mesma forma como os casais heterossexuais falaram?
Pessoalmente, eu teria considerado esta situação como algo enriquecedor. Eu ficaria feliz em ouvi-los, e acho que ouvi-los iria ajudar todos os padres sinodais a entenderem. Penso que a maioria deles nunca teve um contato direto ou um debate... Para eles, trata-se apenas de uma questão teórica, mas nunca chega no nível interpessoal. Quando você está diante de uma pessoa, você fala com ela e compreende a sua ansiedade. Eu sempre penso sobre a abordagem do Nosso Senhor nestas circunstâncias: empático, compreensivo.
A coisa toda sobre a origem da orientação sexual não foi ainda estudada em profundidade. Alguns dizem ser uma escolha. Vejo que, para muitas pessoas, não se trata de uma escolha, então não é justo pensar assim. Nesse sentido, não estamos abertos o suficiente.
Em meu ministério com a comunidade LGBT, encontrei muitos que pensam em deixar a Igreja ou que acham difícil permanecer nela. O que o senhor diria a estas pessoas?
Eu diria que a Igreja abraça vocês, quer vocês, e que a Igreja precisa de vocês. Vocês não são um alguém que representa um fardo a ela. A Igreja precisa de vocês. Vocês fazem parte de nós. Nós gostaríamos de ajudá-los, gostaríamos de vê-los com mais clareza. Estamos nos esforçando para saber como ajudá-los mais em nossos trabalhos pastorais.
Eu também diria: “Não desanimem”. No último Sínodo dos Bispos houve apenas uma intervenção oficial sobre este assunto; nas discussões em grupo o tema surgiu mais vezes. Na edição deste ano, ocorreram algumas vezes mais. Então, eu diria às pessoas LGBTs: “Esperem aí. Com certeza não chegamos ao final. Ainda estamos em processo, e encontraremos uma saída”.
Que conselhos o senhor daria aos outros bispos que poderão se opor a toda e qualquer mudança na questão relação da Igreja com as pessoas LGBTs?
Eu diria a eles que se encontrem com as pessoas. Isso é importante. Estejam com elas. Isso iria nos ajudar – e a mim também – a ver a realidade, a perceber que esta questão não se trata de um problema acadêmico, mas que é um problema real. Não se trata de um caso acadêmico onde dizemos: “A é igual a B, e B é igual a C”. Há inúmeras ramificações.
Eu diria a eles que a Igreja é uma mãe toda acolhedora, que a Igreja é mãe e mestra. A mãe não manda o seu filho embora, não importa o que for.
Fiquei emocionado ao ouvir esta sua resposta. Foi bonita. Na Igreja americana, um dos maiores grupos que apoiam os direitos das pessoas LGBTs são as mães e os pais. Dizemos que eles são uma ponte, pois são pessoas muito dedicadas à Igreja e muito dedicadas aos seus filhos e filhas.
Os pais sofrem muito, mas eles compreendem os filhos. Então, não podemos ser legalistas. Não podemos mudar a doutrina ou o ensino da Igreja. Não tenho certeza de que possuímos a palavra final. Temos de estudar continuamente as  escrituras, a moral, o Direito Canônico, a fim de ver o que poderíamos fazer.
Obrigado pelo seu tempo conosco. Tenho certeza de que o senhor é alguém muito ocupado.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos 

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