Sejam Bem-Vindos!

"É uma grandiosíssima calúnia dizer que tenho revoltas contra a Igreja. Eu nunca tive dúvidas sobre a Fé Católica, nunca disse nem escrevi, nem em cartas particulares, nem em jornais, nem em quaisquer outros escritos nenhuma proposição falsa, nem herética, nem duvidosa, nem coisa alguma contra o ensino da Igreja. Eu condeno tudo o que a Santa Igreja condena. Sigo tudo o que ela manda como Deus mesmo. Quem não ouvir e obedecer a Igreja deve ser tido como pagão e publicano. Fora da Igreja não há salvação."
Padre Cícero Romão Batista

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Vaticano II: Que pensava um jovem?


Nasci e cresci sob o pontificado de Pio XII. À distância e sem os canais de televisão que nos trazem o mundo para dentro de casa, a Igreja e o Papado surgiam como a imagem do imobilismo sereno, de que o “Pastor Angélico” era o guardião.
Tinha 13 anos quando João XXIII foi eleito e 15 quando anunciou a realização de um Concílio. Trento e a Contra-Reforma preenchiam, na minha cabeça de estudante, o espaço semântico correspondente a essa área vocabular. Foi por isso com alguma surpresa e muita curiosidade que comecei a seguir as notícias que iam aparecendo e as conversas dos mais velhos.
Confesso que estranhei o facto de o Papa ter pedido orações a toda a Igreja pelo seu “aggiornamento” – palavra nova que começou a circular nos meios católicos. Mas estava longe de imaginar a que âmbitos essa renovação se poderia estender e em que aspetos isso me afetaria.
Pouco a pouco, três vias foram tornando-se nítidas e concentrando as minhas expectativas: a reforma litúrgica, o papel dos leigos na Igreja e as relações com os cristãos não-católicos. Eram áreas que me interessavam por corresponderem a situações de algum mal estar na minha vida cristã. A incompreensão do latim criava situações quase ridículas de participação em missas “a dobrar”, em que o celebrante, de costas para o povo, proferia umas orações em língua estranha e alguém, na estante, lia outras coisas para que todos percebessem, tornando-se o foco das atenções. O lugar fortemente hierarquizado que o clero ocupava deixava-nos, a nós, simples leigos, numa posição de menoridade constante, que um ou outro sacerdote minorava, embora tal atitude me parecesse sempre mais de condescendência do que de respeito pelo nosso papel. Por fim, a forma agressiva como eram tratados os protestantes irritava-me, acabando por invejar a sua atitude coerente e quase pronta para o martírio, contrastando com o ar instalado dos católicos.
Estas perspetivas alargaram-se muito quando, em 1962, comecei a frequentar o Seminário de Olivais, onde se cruzavam, de forma visível, os anseios por uma renovação bem ousada e os receios de uma derrapagem para ravinas insuspeitáveis. As conversas no corredor e na quinta, as leituras de peritos conciliares, como Congar, Danielou, Rahner, que nos chegavam em francês ou em alguma tradução visivelmente clandestina, foram-me abrindo para outras questões, mais teológicas e sociais, como a estrutura da Igreja e a sua presença no mundo – que haviam de vir até nós nas constituições “Lumen Gentium” e “Gaudium et Spes”.
Era, pois, com grande expectativa que acompanhava as notícias vindas de Roma, sempre filtradas pela imprensa nacional ou pelos guardiães da paz institucional. Recordo-me que organizámos um jornal interno, meio secreto, construído a partir da audição da Rádio Vaticano, que corria pelos quartos e nos ia informando sobre o que se passava em S. Pedro. Recordo-me, com emoção, de uma ocasião em que as opiniões dentro do Seminário se dividiam quase em confronto e nos chegou uma palavra do nosso Patriarca, citando S. Paulo a Timóteo e dizendo: “A Palavra de Deus não pode ser acorrentada”.
E assim vivi, na excitação dos meus verdes anos, aqueles tempos memoráveis, que sabia únicos na minha vida. No pico do entusiasmo, meti-me no comboio a caminho de Roma e consegui assistir a uma sessão do Concílio – feito espantoso para quem tinha 20 anos acabados de fazer!
Quando os primeiros documentos começaram a surgir, era eu estudante da Universidade de Lisboa. Devorei a constituição “Sacrosanctum Concilium”, a primeira a aparecer e que, curiosamente, respondia aos meus mais antigos anseios. E não deixou de ser interessante espiar a forma como ela era recebida nos meios que eu frequentava: curiosidade, júbilo, susto, quase pânico…
Mas o que continuava a alimentar as nossas expectativas, minhas e de alguns amigos com quem discutia estas coisas, era o famoso “esquema 13”, o documento que falaria das relações entre a Igreja e o mundo. Sopravam em Portugal ventos de mudança e os católicos perguntavam-se o que podiam/deviam fazer perante um Estado que lhes aparecia como injusto, distante dos direitos do povo, ameaçador de liberdades, repressor de opiniões divergentes. Que iria dizer a Igreja institucional? Como se articularia o documento que faltava sair com a definição de “Povo de Deus” que a Lumen Gentium tinha proposto um ano antes?
Finalmente, saiu a Gaudium et Spes. Para quem esperava receitas de aplicação fácil e imediata, foi uma desilusão. Os que começaram a “abrir a arca” e a tirar de lá “coisas velhas e novas” encontraram um tesouro que ainda hoje não está completamente explorado. Mas isso é outra conversa…
José Victor Adragão
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