Sejam Bem-Vindos!

"É uma grandiosíssima calúnia dizer que tenho revoltas contra a Igreja. Eu nunca tive dúvidas sobre a Fé Católica, nunca disse nem escrevi, nem em cartas particulares, nem em jornais, nem em quaisquer outros escritos nenhuma proposição falsa, nem herética, nem duvidosa, nem coisa alguma contra o ensino da Igreja. Eu condeno tudo o que a Santa Igreja condena. Sigo tudo o que ela manda como Deus mesmo. Quem não ouvir e obedecer a Igreja deve ser tido como pagão e publicano. Fora da Igreja não há salvação."
Padre Cícero Romão Batista

quinta-feira, 30 de maio de 2013

A Igreja é santa? Como assim?


Este artigo surgiu de um rascunho de resposta a um leitor anônimo que passou a nos enviar, insistentemente, comentários questionando acerca do motivo de o Papa João Paulo II ter pedido perdão pelos "erros da Igreja", em especial aos judeus, por conta do "comportamento da Igreja durante a Segunda Guerra Mundial" (sic). Esses comentários surgiram depois de um outro leitor anônimo ter insinuado que o Papa Pio XII era simpatizante do regime nazista.

Mesmo com diversas respostas, - minhas e dos leitores e colaboradores Lucas Henrique de Oliveira e "Católica", - demonstrando e comprovando (inclusive com referências e indicação bibliográfica) que essas acusações contra o Sumo Pontífice são improcedentes e caluniosas, continuaram os comentários repetidos, insistindo na mesma questão: então por que João Paulo II pediu perdão aos judeus?

Claro que o Papa Pio XII não foi conivente e nem omisso com relação aos crimes nazistas, como alegam os inimigos da Igreja de plantão, e comprovar este fato é muito simples: como lembrou Lucas, até importantes e famosos judeus da época o atestaram, como Albert Einstein, que declarou publicamente: “Só a Igreja Católica protestou contra o assalto hitlerista à liberdade”.

É fato histórico que, em resposta às calúnias, diversos sobreviventes do holocausto nazista, e inclusive destacados rabinos e autoridades israelitas, manifestaram-se em defesa de Pio XII. Não vou me aprofundar nesse tema específico neste artigo, mas adianto que são tantas as citações e referências históricas que provam a inocência e a coragem de Pio XII na luta contra o nazismo e na proteção do povo judeu, que para tratar do assunto como se deve eu teria que produzir pelo menos uns dois outros posts bem extensos.

Entendemos que a questão que realmente confunde a cabeça de quem se apega a essas "picuinhas" é muito mais profunda do que saber se um Papa simpatizava com o nazismo ou não. - Mais adiante entraremos na essência da questão. - Por ora, vou deixar a indicação de um bom livro para os que estiverem honestamente interessados: "Pio XII, o Papa dos Judeus", de Andrea Tornielli, João César das Neves e António Maia da Rocha (Editora Civilização), que pode ser encontrado na Livraria Ecclesiae (veja aqui). Quem quiser ler online um dossiê completo sobre o assunto, pode também acessar a página do jornalista e filósofo (dos bons) Olavo de Carvalho, clicando aqui. Vale a pena.

Mas então, afinal, porque o Papa João Paulo II pediu perdão? Se Pio XII não errou, por que se desculpar? A pergunta parece fazer sentido. Vejamos: em primeiro lugar, é interessante lembrar que esse tal pedido de perdão de João Paulo II gerou controvérsia dentro da Igreja. Nem todos concordaram com essa atitude do Sumo Pontífice, e para falar a verdade, quem mais a festejou foram a mídia modernista e os adversários declarados da Igreja. Acontece que, se por um lado o Papa assumiu uma postura nobre e humildemente cristã, ele sem querer também deu munição aos caluniadores: esse pedido de perdão foi e será sempre explorado pelos que gostam de atacar a Igreja (prova disso são os comentários do leitor anônimo). Ora, só pede perdão quem se sente culpado.

O que falta é esclarecer que o pedido de perdão foi pelos erros humanos dos filhos da Igreja, e não por supostos erros da Igreja num sentido absoluto: a Igreja, enquanto condutora dos cristãos no mundo, enquanto Esposa e Corpo Místico de Cristo, do qual o Senhor é a Cabeça, não erra e nem pode errar, segundo a Promessa dEle mesmo: "As portas do Inferno não prevalecerão contra ela" (Mt 16,18); “Eis que estou convosco até o fim do mundo” (Mt 28,20).

Agora vamos esclarecer a questão do referido pedido de perdão do Papa, de uma vez por todas, antes de entrarmos no problema mais profundo e realmente essencial, como mencionei antes. - Ocorre que, no início da Quaresma do ano 2000, pela primeira vez, todos os pecados do passado dos filhos da Igreja foram citados em conjunto, num documento intitulado "Memória e Reconciliação: a Igreja e as Culpas do Passado", que agrupou as incorreções em blocos que abrangem toda a história da Igreja, incluindo o tópico # pecados contra os judeus.

Certo. E para que possamos entender qual é o sentido da culpa que o Papa está assumindo e pela qual está pedindo perdão, em nome dos Papas e clérigos antes dele, faço questão de reproduzir, abaixo, o trecho do documento que trata especificamente deste assunto. Você, leitor anônimo que insistiu na pergunta, e todos os que tiverem dúvidas a respeito, por favor, leiam com atenção (negritos nossos):

"A Shoah (holocausto) foi certamente resultado de uma ideologia pagã, como era o nazismo, animada de um cruel anti-semitismo, a qual não só desprezava a fé mas também negava a própria dignidade humana do povo hebraico. Contudo, deve-se perguntar se a perseguição do nazismo nos confrontos com os judeus não foi facilitada por preconceitos antijudaicos presentes nas mentes e corações de alguns cristãos. Ofereceram os cristãos toda a assistência possível aos perseguidos e, em particular, aos judeus? (45) Sem dúvida que foram muitos os cristãos que arriscaram a vida para salvar e assistir os judeus seus conhecidos. Parece, porém, igualmente verdade que ao lado destes corajosos homens e mulheres, a resistência espiritual e a ação concreta de outros cristãos não foi aquela que se poderia esperar de discípulos de Cristo.(46) Este fato constitui um apelo à consciência de todos os cristãos, hoje, exigindo um ato de arrependimento,(47) e tornando-se um estímulo a que redobrem os seus esforços para serem 'transformados, adquirindo uma nova mentalidade' (Rm 12,2) e para manterem uma memória moral e religiosa da ferida infligida aos judeus. Nesta área, o muito que já foi feito poderá ser consolidado e aprofundado."
(Documento Memória e Reconciliação: a Igreja e as Culpas do Passado - Comissão Teológica Internacional - para ler direto na página oficial do Vaticano, clique aqui)


Interessante como a realidade é diferente do que pintam por aí, não é mesmo? Pois é... João Paulo II nunca pediu perdão pelos erros de Pio XII, muito menos pelo "comportamento da Igreja" durante a guerra... Ele declara, apenas e tão somente, que alguns cristãos poderiam ter feito mais do que fizeram, e outros possivelmente pecaram por se deixarem levar por preconceitos antissemitas. Ele declara ainda que muito foi feito, mas que pode ser aprofundado. Somente isso.


A questão essencial

Respondida de uma vez a pergunta, encerro por enquanto o assunto Pio XII e Segunda Grande Guerra. Como falei, a questão que se impõe vai muito além disso. A pergunta que precisa ser respondida, para esclarecer de uma vez por todas as mentes das pessoas que fazem (e insistem) nesse tipo de pergunta, é a seguinte: afinal, como a Igreja pode ser santa, se a história está manchada pelos muitos pecados dos católicos, inclusive de Padres, Bispos e Papas? Essa dúvida aparece quando não se sabe exatamente o que Cristo afirmou nas palavras "as portas do inferno não prevalecerão contra ela" (Mt 16, 18).

Para facilitar a compreensão, cabe usar de uma conhecida analogia: conta-se que Napoleão, grande líder militar e vencedor de tantas batalhas, após ter mantido por longo tempo o Papa Pio VII prisioneiro em Fontainebleau, queria tomar a Igreja Católica sob sua tutela, para assim alcançar a hegemonia total na Europa. Com essa ideia em mente, redigiu uma concordata que entregou ao Secretário de Estado da época, Cardeal Consalvi. O imperador disse ao Cardeal que voltaria no dia seguinte e que queria o documento assinado. Depois de ler a concordata, Consalvi informou Sua Santidade de que assinar o documento equivaleria a vender a Igreja ao Imperador da França e, por conseguinte, implorou-lhe que não o assinasse. Quando Napoleão voltou, o Cardeal informou-o de que o documento não havia sido assinado. O imperador começou então a usar um dos seus mais conhecidos estratagemas: a intimidação. Numa explosão de ira, berrou: “Se este documento não for assinado, eu destruirei a Igreja Católica Romana!”; mas Consalvi calmamente replicou: “Majestade, se os Papas, Cardeais, Bispos e Padres não conseguiram destruir a Igreja em dezenove séculos, como Vossa Alteza espera consegui-lo durante os anos da sua vida?”...

Fica claro o sentido das palavras do Cardeal Consalvi nesse episódio. Ele expõe um fato histórico incontestável: apesar dos inumeráveis pecadores no seio da Igreja, ela subsistiu e subsiste através dos séculos, por ser a Esposa de Cristo, Igreja santa e protegida pelo Espírito Santo! Nem todos os maus clérigos puderam fazer com que ela perecesse, e nem poderão. Nem todos os inimigos da Igreja, tantas vezes enrustidos dentro dela mesma, serão capazes de fazê-la tombar! Há dois mil anos, toda sorte de falsos profetas e profetizas gritam que ela vai cair, que vai acabar, e todos eles sempre acabam confusos, humilhados, desementidos, um após o outro...

A Igreja sobrevive e continuará a sobreviver, mesmo com muitíssimos problemas. Precisamos entender que Cristo nunca disse que daria líderes perfeitos à sua Igreja; o Senhor nunca declarou que todos os membros da Igreja seriam santos e irrepreensíveis. Judas era um dos Apóstolos; São Pedro, o primeiro Papa, negou o Mestre por três vezes... E assim continuaram errando e derrapando os filhos da Igreja, em toda a sua história. Mas nosso Senhor disse que o inferno não prevaleceria contra ela e isto vem se cumprindo há dois milênios! O mal rodeia, atrapalha, interfere, maltrata, atenta, infiltra-se... Mas não prevalece! Não vence, não triunfa, não consegue fazer ruir a Igreja, e sempre foi assim.

Muito importante: A palavra “Igreja” tem dois sentidos: um sobrenatural e outro sociológico. Para os não-católicos, a Igreja é uma instituição meramente humana, instituição cuja história está carregada de crimes. É preocupante o fato de que o significado sobrenatural da palavra Igreja, – a saber, a santa e imaculada Esposa de Cristo, – seja totalmente desconhecido por tantas pessoas, e até por um alto percentual de católicos cuja formação religiosa vem sendo negligenciada desde o Concílio Vaticano II.

Por isso, quando o Papa pediu perdão pelos pecados dos cristãos do passado, muita gente se apressou em supor que ele estava assumindo que a Igreja, como um todo, é pecadora, falida, criminosa. – “A instituição religiosa mais poderosa da terra está finalmente admitindo as suas culpas", vibraram muitos, e alguns "viajaram" ainda mais além, supondo que a própria existência da Igreja foi, em algum sentido, prejudicial à humanidade. Isso é um terrível e fatal engano.

Na realidade, é ela mesma, - a Igreja Esposa de Cristo, - a maior vítima dos pecados dos seus filhos; também é ela mesma que implora a Deus pelo perdão dos pecados destes filhos. É a Santa Igreja que implora a Deus que cure as feridas infligidas por aqueles seus filhos que a traíram, muitas vezes em nome da própria Igreja. Por isso a Liturgia Católica é tão rica em orações que invocam o Perdão de Deus. As vítimas dos pecados podem (e devem) perdoar o mal que sofreram, mas não podem de forma alguma perdoar o mal moral em si.

A Santa Igreja Católica não peca, mas muitas vezes é a mãe dolorosa de filhos rebeldes, orgulhosos e desobedientes. Ela dá-lhes os meios de salvação, dá-lhes a conhecer o Caminho da Verdade, mas não pode forçá-los a viver os seus santos ensinamentos, a praticar o que ela ensina, e isto aplica-se a todo o Corpo Eclesial, em toda a sua história. Cristo foi traído por um dos seus Apóstolos e negado por outro, mas aí mesmo podemos ver a diferença fundamental entre santidade e rebeldia: o primeiro enforcou-se; o segundo arrependeu-se, chorou amargamente e depois assumiu a sua missão como Apóstolo e condutor da Igreja, dedicando-se de corpo e alma, até o fim da vida, pelo bem da Igreja.

A distinção entre o sentido sobrenatural e o sentido sociológico da Igreja deve ser continuamente enfatizada, pois fatalmente causa confusão quando não é explicada com clareza.

Os que se declaram católicos mas pisoteiam a doutrina católica são traidores, e isto deveria ser muito simples de entender. A Igreja deve ser julgada, obviamente, com base naqueles que vivem os seus ensinamentos, e não naqueles que os traem: isso é justiça.

A Profª Alice von Hildebrand (Hunter College da City University de New York) testemunha que um certo judeu ortodoxo, seu colega, lamentava o fato de muitos judeus se tornarem ateus, dizendo: “Se somente um judeu permanecer fiel, esse judeu é Israel”. Ora, o princípio está certíssimo, e o mesmo pode ser dito com relação à Igreja Católica: é evidente que apenas as pessoas fiéis ao ensinamento da Igreja é que podem falar em seu nome, e jamais aqueles que agem contra o que a Igreja prega como princípio.

Os pecadores, aliás, estão igualmente distribuídos pelo mundo, em todas as nações, religiões e instituições, e não são exclusividade dos católicos. Sendo assim, porque é a Igreja Católica o principal alvo dos inimigos da religião em geral? Vemos aí o cumprimento explícito de uma certa profecia de Jesus Cristo, contida no Evangelho segundo S. Lucas (21,17). Sim. Sempre fomos e seremos odiados por amor ao seu Nome.

Somente quem enxerga a Santa Igreja Católica (chamada santa cada vez que o Credo é recitado) com os olhos da fé compreende, com imensa gratidão, que a Igreja é a Santa Esposa de Cristo, sem ruga nem mácula, por causa da santidade do seu ensinamento, pois a Igreja está naquilo que ensina e representa, e não nos que a traem. A Igreja é santa porque aponta o caminho da Vida Eterna e porque é através dela que temos os meios da Graça, ou seja, os Sacramentos.

O pecado é sempre uma realidade medonha, e os pecados cometidos por aqueles que se dizem servos de Deus são especialmente repulsivos; nunca serão excessivamente lamentados, mas devemos lembrar sempre que, apesar de muitos membros da Igreja serem, infelizmente, cidadãos da cidade dos homens e não da Cidade de Deus, a Igreja permanece santa.


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Parte deste artigo é baseado em texto de Alice von Hildebrand, Professora Emérita de Filosofia do Hunter College da City University de Nova York. É autora de diversos livros, entre os quais os mais recentes são: “The Soul of a Lion” (Ignatius Press), sobre o seu falecido marido, o célebre filósofo Dietrich von Hildebrand; “The Privilege of Being a Woman” (Sapientia Press); e “By Love Refined” (Sophia Institute Press).

Fonte: Homiletic and Pastoral Review, disponível em:
http://catholic.net/rcc/Periodicals/Homiletic/2000-06/vonhildebrand.html. Acesso em 3 jun 2011


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