Sejam Bem-Vindos!

"É uma grandiosíssima calúnia dizer que tenho revoltas contra a Igreja. Eu nunca tive dúvidas sobre a Fé Católica, nunca disse nem escrevi, nem em cartas particulares, nem em jornais, nem em quaisquer outros escritos nenhuma proposição falsa, nem herética, nem duvidosa, nem coisa alguma contra o ensino da Igreja. Eu condeno tudo o que a Santa Igreja condena. Sigo tudo o que ela manda como Deus mesmo. Quem não ouvir e obedecer a Igreja deve ser tido como pagão e publicano. Fora da Igreja não há salvação."
Padre Cícero Romão Batista

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Concílio Vaticano II


Concílio Vaticano II (CVII), XXI Concílio Ecumênico da Igreja Católica, foi convocado no dia 25 de Dezembro de 1961, através da bula papal "Humanae salutis", pelo Papa João XXIII. Este mesmo Papa inaugurou-o, a ritmo extraordinário, no dia 11 de Outubro de 1962. O Concílio, realizado em 4 sessões, só terminou no dia 8 de Dezembro de 1965, já sob o papado de Paulo VI.
Nestas quatro sessões, mais de 2 000 Prelados convocados de todo o planeta discutiram e regulamentaram vários temas da Igreja Católica. As suas decisões estão expressas nas 4 constituições, 9 decretos e 3 declarações elaboradas e aprovadas pelo Concílio.[1] Apesar da sua boa intenção em tentar actualizar a Igreja, os resultados deste Concílio, para alguns estudiosos, ainda não foram totalmente entendidos nos dias de hoje, enfrentando por isso vários problemas que perduram. Para muitos estudiosos, é esperado que os jovens teólogosdessa época, que participaram do Concílio, salvaguardem a sua natureza; depois de João XXIII, todos os Papas que o sucederam até Bento XVI, inclusive, participaram do Concílio ou como Padres conciliares (ou prelados) ou como consultores teológicos (ou peritos).[3][4]
Em 1995, o Papa João Paulo II classificou o Concílio Vaticano II como "um momento de reflexão global da Igreja sobre si mesma e sobre as suas relações com o mundo". Ele acrescentou também que esta "reflexão global" impelia a Igreja "a uma fidelidade cada vez maior ao seu Senhor. Mas o impulso vinha também das grandes mudanças do mundo contemporâneo, que, como “sinais dos tempos”, exigiam ser decifradas à luz da Palavra de Deus".[5]
No ano 2000, João Paulo II disse ainda que: "o Concílio Vaticano II constituiu uma dádiva do Espírito à sua Igreja. É por este motivo que permanece como um evento fundamental não só para compreender a história da Igreja no fim do século mas também, e sobretudo, para verificar a presença permanente do Ressuscitado ao lado da sua Esposa no meio das vicissitudes do mundo. Mediante a Assembleia conciliar, [...] pôde-se constatar que opatrimónio de dois mil anos de fé se conservou na sua originalidade autêntica".

RCC na visão de um antropólogo: "Bailando com o Senhor: técnicas corporais de culto e louvor"



Esta é muito boa mesmo: Raymundo Heraldo Mauésprofessor do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Parápublicou trabalho baseado no comportamento de membros da renovação carismática.
Ele compara as práticas destes novos “católicos” com o xamanismo (isso mesmo) e com “igrejas” afro-brasileiras. O título do trabalho é muito sugestivo: ""Bailando com o Senhor: técnicas corporais de culto e louvor(o êxtase e o transe como técnicas corporais)”.
Este trabalho é muito extenso, mas acho que vale a pena ser lido. Quem não tiver tempo, deve, creio eu, pelo menos “passar os olhos”. Em um resumo deste trabalho feito pelo próprio autor, nós lemos as seguintes palavras:
“(...) A utilização do corpo como instrumento de culto e louvor, em técnicas de cura ou de outros tipos, por católicos carismáticos, que tem despertado tanta atenção, também por sua exibição na mídia (através da atuação de ministros como o padre Marcelo Rossi, no Brasil),permite uma reflexão e um estudo comparativo com outras formas de culto, entre as quais aquelas com características xamânicas, como a pajelança rural amazônica (não indígena) e as religiões afro-brasileiras. Partindo da noção de técnicas corporais, formulada por Marcel Mauss, e lidando com conceitos de autores como Merleau Ponty, Pierre Bourdieu e Thomas Csordas, o artigo analisa parte do material empírico coletado pelo autor em sua pesquisa de campo, que tem como locus a cidade de Belém e a região do Salgado, na Amazônia Oriental brasileira”.
Este trabalho também conta com testemunhos incríveis. Em um deles uma mulher diz:
“(...) Quando me ergui para a Comunhão [diz madre Joana, num outro trecho de seu depoimento] o diabo tomou posse da minha mão, equando eu recebera a Sagrada Hóstia e já a umedecera um pouco, o diabo jogou-a no rosto do padre. Sei muito bem que não agi assim livremente, mas tenho certeza que estava completamente confusa por permitir que o diabo fizesse isso. (Sargant, 1975, p. 71 apud Oesterreich, 1930, p. 49-50)”.
E existem muitas outras coisas parecidas com esta. O trabalho completo que envio abaixo está no seguinte endereço:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-77012003000100001



Revista de Antropologia
Print ISSN 0034-7701
Rev. Antropol. vol.46 no.1 São Paulo  2003
doi: 10.1590/S0034-77012003000100001 
ARTIGOS
""Bailando com o Senhor"": técnicas corporais de culto e louvor (o êxtase e o transe como técnicas corporais)1
Raymundo Heraldo Maués
Professor do Departamento de Antropologia - Universidade Federal do Pará
Por sua exposição na mídia, provavelmente o que mais se conhece, atualmente, da Renovação Carismática Católica (RCC), no Brasil, são as missas e os cânticos do carismático padre Marcelo Rossi. Sua imagem é difundida pela TV e por várias fitas de vídeo que circulam e são avidamente disputadas pelos fiéis. Suas canções religiosas são tocadas nas rádios, reproduzidas em muitos CDs, cantadas em residências e igrejas e até mesmo em bares durante a madrugada em que, de repente, boêmios com copos de cerveja na mão são tomados de inusitado entusiasmo religioso, na cidade de Belém.2 E, nas reuniões da RCC, nas igrejas e em outros locais, essas canções fazem muito sucesso, permitindo que, com elas, fiéis cantem e dancem animadamente, enquanto oram e louvam o Senhor. Nessas ocasiões, muitas posturas e/ou técnicas corporais são empregadas pelos fiéis, freqüentemente imitando os gestos que o próprio padre Marcelo Rossi ensina em suas movimentadas pregações, que lembram os programas de auditório de animadores de rádio (mais antigos) e de TV (atuais). Ao lado disso, há uma indústria de objetos ""sacros"" (mágicos?), que são expostos nas lojas, entre os quais se destaca o chamado ""terço bizantino"" - como recentemente pude constatar junto à Igreja do Senhor do Bonfim, em Salvador (BA) - para ser usado junto ao corpo, ou por ele manipulado, o qual leva a marca desse famoso sacerdote.
Mas não são as danças ensinadas e provocadas pelas canções do padre Marcelo que inspiram o título deste trabalho. Aqui me refiro, mais especificamente, a um episódio que pude observar durante reunião promovida pelo grupo de oração carismático ""Glória a Ti Senhor"", da Paróquia de São Francisco Xavier, em bairro da periferia de Belém (PA). De 3 a 4 de julho de 1999, participei de uma ""Oficina de Dons"" promovida por esse grupo de oração, que se realizou num fim de semana, no auditório de uma escola de primeiro grau no bairro onde se situa a paróquia. A oficina se constituía de pregações realizadas por um jovem, pertencente a outro grupo carismático, especialmente convidado, destinando-se, sobretudo, ao núcleo do ""Glória a Ti Senhor"" e a um pequeno grupo de recém-ingressos. Estes últimos há poucas semanas haviam participado de outra reunião, chamada ""Querigma"", ou ""1o Seminário de Vida no Espírito"", durante a qual os mesmos foram selecionados como pessoas que ou receberam os chamados ""dons do Espírito"" ou demonstraram ser propensas e estar desejosas de recebê-los. Muitas partes da oficina eram especialmente destinadas a esses neófitos e visavam, sobretudo, ensinar-lhes técnicas corporais capazes de propiciar ou facilitar a chamada ""efusão do Espírito"". Chamou-me atenção, sobretudo, a técnica que foi denominada pelo jovem pregador de ""bailar no Espírito"", ensinada na tarde do segundo dia do encontro. Tocando ao violão uma música suave, o mesmo sugeriu que todos, de pé, cada um por si e de olhos fechados, começassem a dançar, ""entregando-se ao Senhor"", até que a maioria dos participantes, inclusive os neófitos, entrou em êxtase e ficou, então, bailando com o Senhor,3 de modo que, em pouco tempo, vários caíram ao solo - o que também se chama de ""repouso no Espírito"".
Este trabalho, que utiliza como material empírico dados que tenho coletado em pesquisa de campo, em grupos de oração de várias paróquias da Grande Belém, desde março de 1997, tem como objetivo realizar um estudo sobre o êxtase, o transe e a possessão como técnicas corporais na RCC, comparando-os com outras manifestações religiosas do mesmo gênero de que tenho conhecimento direto, mais especificamente na pajelança cabocla amazônica, utilizando, também, para análise, alguns elementos presentes na literatura. Ele retoma em parte e propõe-se a ir além do que já escrevi em trabalho anterior (Maués, 2000) sobre técnicas corporais na RCC, pretendendo beneficiar-se de discussões teóricas sobre o corpo, já desenvolvidas por alguns autores, especialmente no campo da Antropologia, que serão citados mais adiante. Tratando, pois, mais especificamente, do êxtase, do transe e da possessão, pretendo também discutir questões relacionadas aos diferentes níveis de consciência/inconsciência no que se costuma considerar estados alterados de consciência de natureza mística ou religiosa, de uma perspectiva antropológica.
A RCC em Belém, que é parte de um movimento de caráter nacional e internacional, não difere de modo significativo em suas estruturas mais amplas, o que ocorre em outros lugares. Ela tem como núcleo básico o grupo de oração, onde há principalmente o recrutamento de seus membros e uma estrutura de coordenação centralizada na arquidiocese, que por sua vez recebe orientações da Secretaria Nacional. Existem também as comunidades carismáticas, que têm uma organização mais fechada, das quais a mais importante é a Comunidade Maíra. Entretanto, é inegável que a RCC de Belém não pode eximir-se das influências da cultura regional amazônica, inclusive no que diz respeito a crenças e rituais locais, não apenas àqueles do catolicismo. Uma das influências poderosas diz respeito à devoção e ao culto a Nossa Senhora de Nazaré, com seu Círio anual, que, em outubro, comove praticamente toda a cidade de Belém. Mas há outras influências, cuja observação só pode ser feita de maneira mais próxima, convivendo mais diretamente com os membros dos grupos de oração. Para isso, durante um ano, de maio de 1999 a maio de 2000, acompanhei as atividades do grupo de oração ""Glória a Ti Senhor"", acima referido, que pertence a uma paróquia da periferia de Belém. Participei das reuniões e atividades que foi possível, inclusive algumas das mais ""fechadas"", como as do núcleo de coordenação, que se realizavam na residência do coordenador. Acompanhei visitas a doentes, participei de festinhas de aniversário, entrevistei seus participantes. Pude perceber os conflitos internos do grupo, os conflitos com o pároco (que favorecia as CEBs e apenas tolerava a RCC), bem como as influências do catolicismo popular e de outras crenças sobre o movimento. Um dos fatos interessantes é que, tanto o coordenador do grupo quanto sua esposa entraram na RCC depois de se afastarem da umbanda. Esse trânsito, aliás, entre cultos afro, mediúnicos, RCC e pentecostalismo é muito fácil de observar na periferia de Belém. Foi nesse grupo de oração, mais particularmente do que em outros, que pude acompanhar manifestações envolvendo estados alterados de consciência, como glossolalia, bailar no Espírito, repouso no Espírito, profecias e visões proféticas.
Técnicas corporais na RCC e seu propósito
Antes de entrar diretamente no tema deste artigo, pretendo discutir, neste tópico e no seguinte, a noção de técnicas corporais, tal como a utilizo aqui, e fazer uma breve revisão da literatura, incluindo-se aí alguns estudos sobre transe e possessão. Uma discussão especial será feita sobre o trabalho de Marion Aubrée, que realiza comparação entre xangô e pentecostalismo em Recife, e cujas formulações teóricas permitem um diálogo, a meu ver produtivo, com minhas próprias posições (Aubrée, 1996).
Em trabalho anterior (Maués, 2000), utilizei, inicialmente, a conhecida definição de técnicas corporais proposta por Marcel Mauss: ""as maneiras como os homens, sociedade por sociedade e de maneira tradicional, sabem servir-se de seus corpos"". Essa definição pressupõe dada concepção de corpo, que o vê como instrumento: ""O corpo é o primeiro e o mais natural instrumento do homem. Ou mais exatamente, sem falar de instrumento, o primeiro e mais natural objeto técnico, e ao mesmo tempo meio técnico do homem é seu corpo (sic)""4 (Mauss, 1974, p. 211 e 217). Essa concepção, segundo o mesmo autor, implica considerar técnicas corporais como algo que precede a utilização de instrumentos externos ao corpo próprio dos seres humanos.
Por outro lado, ela está amplamente ancorada numa postura filosófica e ideológica que remonta aos antigos gregos, e que, no fundo, envolve uma inter-relação entre corpo e alma (ou espírito), na qual aquele é o instrumento desta última. A separação mais radical entre as noções de corpo e alma, como entidades distintas, embora já presente no cristianismo desde suas origens, na verdade só acontece, no plano filosófico, a partir de Descartes, tendo se incorporado também à ideologia das sociedades ocidentais. Curiosamente, porém, o cogito cartesiano, que dá uma importância tão fundamental ao pensamento (e logo à alma, ao espírito), também ""liberta"" o corpo, que pode, a partir daí, ser concebido e estudado independentemente da alma (Abbagnano, 2000, p. 211-14).
Colocado pela reflexão cartesiana, no século XVII, esse problema certamente não é independente das transformações sociais que se processavam nas sociedades européias do início da chamada Idade Moderna, e sua solução tem sido buscada desde então por diferentes correntes filosóficas, que têm, por sua vez, exercido influência, desde aí, no pensamento social e nas ciências humanas e sociais nascentes, constituindo, no campo da antropologia cultural e social contemporânea, um importante campo de pesquisa, que interessa, entre outras, especialmente às chamadas antropologias da religião e da saúde (neste caso, envolvendo um amplo espectro, que vai desde os estudos sobre body notions até a chamada ""fenomenologia cultural""). Por outro lado, essa longa evolução do pensamento e da ideologia nas sociedades ocidentais - também dependente de sua relação com as transformações sociais ocorridas por longos séculos - implicou, como nos diz Louis Dumont, a transformação do cristão dos primeiros anos do cristianismo (comparado pelo antropólogo francês ao ""renunciante"" indiano), de ""indivíduo-fora-do-mundo"" para ""indivíduo-no-mundo"" (Dumont, 1985, p. 35 ss.). Nessa mudança, evidentemente, em termos weberianos, ocorreu um forte processo de ""desencantamento do mundo"" e de ""secularização"", no qual as concepções sobre o corpo também mudaram radicalmente e, freqüentemente, em plano individual, o cristianismo se perdeu. Entretanto, em certos nichos, como no pentecostalismo e no carismatismo católico, o corpo - e sua relação com a alma - continua sendo pensado e utilizado como instrumento, de um modo que não difere substancialmente de uma concepção e utilização milenar, o que se expressa, de forma privilegiada, através do êxtase.
A respeito dessa relação entre corpo e alma, existem vários estudos importantes, feitos por historiadores, filósofos e antropólogos, dos quais posso citar, entre outros, os de Brown (1990), Csordas (1994, 1997a), Foucault (1985), Le Goff (1985), Merleau-Ponty (1999) e Rodrigues (1999). O instigante trabalho de Douglas (1996), em um de seus capítulos, oferece interessante discussão sobre ""os dois corpos"" (biológico e social). A fenomenologia exerce, recentemente, muita influência sobre alguns estudos antropológicos nessa matéria, inclusive no Brasil (Alves e Rabello, 1998 e Csordas 1994, 1997a). São também importantes, para esse tipo de estudos, as formulações de Pierre Bourdieu, especialmente com seu conhecido conceito de habitus (1980).
As diferentes técnicas corporais utilizadas na RCC, como o canto, os gestos, a dança, a glossolalia e várias outras, têm, como finalidades principais, o louvor a Deus e a obtenção do contato íntimo com a divindade. Como é apontado por conhecido antropólogo americano, que se especializa no estudo desse movimento católico, os carismáticos buscam a construção de um ""self sagrado"", o que implica constante aproximação com o numinoso (Csordas, 1994). Ora, essa aproximação só se completa através do êxtase, quando o fiel - tendo seu corpo concebido na tradição cristã mais ampla como o ""templo do Espírito Santo"" - é capaz de literalmente incorporar a própria divindade, através de técnicas corporais que induzem, proporcionam e configuram o êxtase. Nesse sentido - e usando uma imagem propositalmente forte, mas na qual não existe a intenção de qualquer desrespeito -, o fiel carismático é um possuído de Deus. Exatamente por isso é que, neste trabalho, privilegio a análise do êxtase, do transe ou da possessão como técnica corporal (ou técnicas, pois na verdade envolvem mais de uma) privilegiada na RCC. Como se sabe, essas técnicas são muito antigas e bem espalhadas pelo mundo, sendo utilizadas não só por várias denominações cristãs, mas também por muitas outras religiões - consideradas pelos cristãos como pagãs - e, por isso, torna-se necessário uma rápida menção à literatura antropológica mais vasta e clássica sobre o assunto.
O êxtase, o transe e a possessão
Estados alterados de consciência têm sido observados em todas as sociedades humanas e suas manifestações se denominam de diferentes maneiras, incluindo os termos ""êxtase"", ""transe"" e ""possessão"". O popular dicionário da língua portuguesa Aurélio define o êxtase (do grego ékstasis, pelo latim extase) como ""arrebatamento íntimo; enlevo, arroubo, encanto"" ou ""admiração de coisas sobrenaturais; pasmo, assombro"" ou, ainda (e, neste caso, com sentido psiquiátrico), como ""fenômeno observado na histeria e nos delírios místicos, e que consiste em sentimento profundo e indizível que aparenta corresponder a enorme alegria, mas que é mesclado de certa angústia: fica o paciente quase de todo imobilizado, parecendo haver perdido qualquer contato com o mundo exterior"". Já o verbete transe (do francês transe) é definido como ""momento aflitivo"", ""ato ou feito arriscado; ocasião perigosa; lance"", ""crise de angústia"", ""falecimento, passamento, morte"", ""combate, luta"" e, também, ""estado de médium ao manifestar-se nele o espírito"". Aparecem também as seguintes conotações: ""a todo o transe (...): a todo o custo; à viva força""; ""transe hipnótico (...): estado de profunda sonolência, provocado por hipnose""; e ""transe histérico (...): estado que acompanha certas crises de histeria"". Quanto ao termo possessão (do latim possessione), além do significado político (possessão colonial, sujeita a uma metrópole), surge a definição expressando o sentido que a palavra assume, no Brasil, ligado às religiões de origem africana: ""ato em que o iniciado ou filho-de-santo recebe o seu orixá, tornando-se o seu cavalo e materializando a divindade"" (Dicionário Aurélio).
Evidentemente que essas definições não esgotam o significado dos termos em questão. Mas elas colocam claramente três tipos de significação que estão comumente associadas a eles: em primeiro lugar, um sentido ligado a estados que, embora emocionais, podem ser experimentados por todos (arrebatamento, enlevo, aflição etc.); em segundo, estados alterados de consciência provocados por doença psíquica; e, finalmente, em último, estados (alterados de consciência?) místicos ou não místicos, mas que resultam de uma influência, considerada exterior, sobre o corpo (e a mente) do indivíduo (hipnose, intrusão de espírito etc.).
Esses fenômenos estão presentes na tradição cristã desde os primeiros tempos do cristianismo (seria de fato possível rastreá-los desde a tradição judaica). Assim, para um historiador como Peter Brown, eles encontram-se na origem do culto dos santos, manifestando e revelando aos pagãos, nos santuários a eles consagrados, no Baixo Império Romano, a praesentia e a potentia desses mesmos santos:
A visita a um santuário cristão da Antigüidade tardia podia ser uma experiência de tumulto e terror. A propósito do primeiro choque experimentado pela peregrina romana Paula, diante dos túmulos dos profetas, na Terra Santa, Jerônimo escreveu:
""Ela foi aterrorizada por um grande número de fatos espantosos. Com efeito, viu demônios rugirem sob o jugo de diversos tormentos e, diante dos túmulos dos santos, homens uivarem como lobos, latirem como cães, rugirem como leões, silvarem como serpentes, mugirem como touros, uns, com a cabeça revirada, apoiando para trás o alto do crânio sobre o solo, e mulheres penduradas pelos pés sem que o vestido caísse sobre seus rostos"".
O mapa da Europa católica, tal como se apresentava a um recém-chegado, no final do século VI, era traçado pelos lugares onde se produzia esse gênero de coisas. Porque, nas grandes basílicas da Gália católica, a possessão e o exorcismo passavam pelo signo verdadeiramente irrefutável da praesentia do santo (...).
Para um romano da época tardia, o drama do exorcismo era a demonstração do poder de Deus, revestido da mais indiscutível autoridade. A praesentia do santo era tida como manifestação de precisão infalível na cura dos possuídos, e seu poder ideal, sua potentia, era vista, dessa forma, de modo mais completo e seguro. (Brown, 1984, p. 137-38, tradução minha)
Esses fenômenos são bem familiares ao antropólogo que lida com o que chamamos de antropologia da saúde ou da religião. Uma breve seleção da literatura recente, para me limitar aqui apenas aos autores de língua inglesa, pode incluir estudos como os de Beattie e Middleton (1969), Bourguignon (1973), Crapanzano e Garrison (1977), Goodman et al. (1982), Holm (1982), Lewis (1977) e Walker (1972). Com relação ao Brasil, uma ótima coletânea sobre o xamanismo, incluindo as religiões indígenas, foi organizada por Langdon (1996). Nessa literatura, os fenômenos relacionados ao xamanismo, à intrusão de espírito, à viagem xamânica pelo mundo subterrâneo ou pelas alturas, aos estados alterados de consciência podem ser pensados como uma categoria de tipos de comportamento ou de estados psicobiológicos que se prestam à observação e ao estudo objetivo, não havendo, para o cientista (não apenas para o antropólogo), distinção valorativa entre bons e maus espíritos, a não ser no que respeita às concepções dos próprios nativos.
""Possessão"" é, pois, o termo que expressa a crença das pessoas relativa a determinados sintomas manifestados por alguém que acredita e/ou de quem se diz ter tido o corpo invadido ou tomado por alguma entidade espiritual ou de alguma outra natureza que permita esta forma de intrusão. O comportamento dessa pessoa ""possuída"" pode ser descrito (numa versão um tanto ""behaviorista"") como uma forma de ""transe"", na qual se pode distinguir um tipo ""hipercinético"" (de caráter mais espetacular e agitado), diferente do que se pode chamar de transe ""hipocinético"", que é mais calmo e está freqüentemente associado sobretudo ao chamado misticismo. Como diz Gerrie Ter Haar, a quem vimos seguindo proximamente neste parágrafo: ""a questão do bem e do mal é acrescentada por teólogos e outros, que desejam defender uma ideologia particular, sendo portanto irrelevante"" para uma discussão que leve em conta os processos psicossomáticos e bioquímicos que constituem o background desses fenômenos. Não obstante,
(...) para a cultura ocidental, em cuja tradição está situada a Igreja Católica, a possessão por espírito tornou-se um assunto delicado. As crenças ocidentais geralmente consideram a possessão por espírito como involuntária, uma experiência maléfica, que deveria ser evitada, se possível. Na fala comum, essa atitude negativa se reflete na maneira como as pessoas se referem a respeito de alguém que está ""possuído"", significando um estado de histeria, agindo como louco, tendo perdido, em geral, o controle de si mesmo (...). [Por outro lado, as] referências ao demônio ou a outros espíritos indicam que tal pessoa é um perigo para a sociedade.
O significado negativo emprestado à possessão por espírito é aparente na Bíblia. Toda vez que ela é mencionada, no Novo Testamento, invariavelmente refere-se a maus espíritos, particularmente ao diabo. A maneira adequada de lidar com tais espíritos é expulsá-los. Quando surge um bom espírito (o Espírito Santo), a Bíblia usa um vocabulário bem diferente, para enfatizar a natureza positiva da crença em tal possessão. Por exemplo, no Pentecostes, as pessoas estão ""cheias"" do Espírito Santo e ""falam em línguas"", enquanto no caso de um espírito ""mau"" ou ""impuro"" usa-se o termo ""possessão"", e as manifestações do espírito são vistas como sinais de seu comportamento inadequado (...). Os cristãos no Ocidente usualmente se referem à presença do Espírito Santo numa pessoa em termos de um ""êxtase"" religioso, ao invés de uma ""possessão"", a qual é pensada com uma conotação negativa. Esta associação negativa com a presença de espíritos não é exclusiva da Cristandade, e pode ser observada em outras religiões de natureza dualista. Elas fazem uma distinção absoluta entre bem e mal e, como resultado, entre possessão por um espírito que é absolutamente bom e por outro que é absolutamente mau. Aos olhos dos crentes, a possessão por um é uma experiência completamente diferente da possessão por outro, não havendo nada em comum entre esses espíritos. (Ter Haar, 1999, p. 117-18, tradução minha)
Neste ponto, recorrendo a uma literatura de origem francesa e a uma autora muito ligada ao Brasil, torna-se importante chamar atenção para as distinções elaboradas por Marion Aubrée, que se inspirou nas formulações de seu compatriota Gilbert Rouger (Aubrée, 1996). Considerando o transe como um fenômeno composto ao mesmo tempo de elementos psicofisiológicos e culturais, Aubrée propõe uma distinção entre o transe e o êxtase. Para ela, o êxtase,
noção muito empregada no meio cristão, [diferencia-se] tanto pelos modos de indução quanto pelos estados psicofisiológicos que [o caracterizam em relação ao transe] e, pode-se acrescentar, pelo simbolismo expresso por aqueles que o vivenciam. De fato, o êxtase, quer esteja relacionado à mística cristã, xamânica ou espírita, é sempre descrito como uma saída de si, geralmente segundo uma dinâmica de viagem, enquanto que o transe corresponde sempre à descida de uma divindade ou de um espírito na pessoa. (Aubrée, 1996, p. 175, tradução minha)
O argumento prossegue, então, buscando essa autora definir mais claramente o transe, de modo a distingui-lo do êxtase. Para ela, levando em conta a literatura sobre o assunto, ""a indução ao transe passa pelo ruído e pela agitação: ela requer a presença de outros, enquanto o êxtase surge na imobilidade e no silêncio da solidão"". No que diz respeito a esse estado, a autora, invocando Rouget, fala-nos de ""uma superestimulação sensorial, uma dissociação da consciência que não permite memorizar a experiência e, enfim, uma ausência de alucinações"". Ao contrário, no que concerne ao êxtase, emprestando uma idéia de Lapassade, Aubrée nos diz que se pode observar ""uma consciência clara do que se passa e, em conseqüência, a possibilidade de se recordar (cf. os místicos cristãos), assim como de freqüentes alucinações"". Tudo isso prepara a distinção mais importante que será aplicada ao longo de seu artigo, ao procurar distinguir, ainda segundo Rouget, as formas de transe que encontrou em sua própria pesquisa, em Recife, entre os adeptos do xangô e do pentecostalismo: o ""transe de possessão"" (que, segundo ela, é uma característica do primeiro) e o ""transe de inspiração"" (que caracteriza o pentecostalismo, especialmente no que diz respeito à glossolalia). ""No primeiro caso [xangô], o possuído muda de personalidade, no sentido de que ele se transforma na divindade; no segundo [pentecostalismo], o indivíduo conserva sua personalidade, mas é cercado (investi) pela divindade que, ao dominá-lo, faz dele seu porta-voz"" (p. 175).5
Essas observações de Marion Aubrée são bastante úteis para pensar o êxtase, o transe e a possessão. Voltarei a essas idéias, mais adiante, comparando-as com meus próprios dados etnográficos, a fim de discuti-las mais amplamente. Posso adiantar, no entanto que, embora úteis para minha reflexão, as mesmas não se apresentam inteiramente adequadas às situações concretas que tenho investigado, em outro contexto social e tratando de crenças e práticas diferentes (embora com várias semelhanças) - de modo especial a RCC e a pajelança cabocla ou rural -, numa parte da Amazônia brasileira, cujas tradições culturais e religiosas diferem, em vários aspectos, do Nordeste.
O êxtase, o transe e a possessão entre os carismáticos católicos
Neste tópico, como foi anunciado acima, pretendo entrar diretamente na discussão sobre estados alterados de consciência - êxtase, transe e possessão —, a partir dos dados de minha pesquisa de campo, e ao mesmo tempo retomar o diálogo com o artigo de Marion Aubrée.
Na RCC as técnicas corporais que envolvem estados alterados de consciência - com maior ou menor intensidade - estão relacionadas ou com a ação do Espírito Santo sobre os fiéis ou, ao contrário, com a possessão demoníaca, que pode manifestar-se, de forma mais ou menos evidente, em pessoas que, em termos nativos, ""não têm Deus em suas vidas"". No primeiro caso trata-se de fiéis que, iniciando-se na Renovação, recebem os ""dons do Espírito"", ou são por Ele tocadas, podendo, em razão disso, manifestar em seus corpos fenômenos como a glossolalia e o chamado ""repouso no Espírito"", além de outros. Em trabalho anterior, já citado, tratei, com alguns detalhes, a respeito dessas duas técnicas.
A glossolalia (mais comumente, ""falar"" ou ""orar em línguas"") é um fenômeno muito mais amplo, que transcende o religioso - sendo utilizado em contextos variados, inclusive na música profana - e que não se restringe ao cristianismo (Aubrée, 1996; Goodman, 1972; e Pollak-Eltz, 1999). Ela acontece mais facilmente em alguns momentos das reuniões da RCC, quando os iniciados
(...) começam a orar em conjunto, (...) cada um dizendo suas próprias orações, com palavras diferentes, uns dos outros. Ouve-se, sobretudo, a fala do líder, que muitas vezes está usando um microfone. Mas todas as pessoas oram, em voz alta, ao mesmo tempo, suas próprias orações, de forma idiossincrática, de modo que se tem a impressão de uma balbúrdia de vozes, sobretudo se há maior exaltação emocional entre os integrantes do grupo (às vezes uma multidão, como em ginásios e estádios). É nesse momento que ocorre, também, o orar em línguas, como seqüência natural de uma improvisação de orações para as quais, muitas vezes, faltam palavras compreensíveis, e as pessoas que têm o dom passam a orar como já o faziam há tantos anos os profetas do Antigo Testamento (...), o que continuou se repetindo nas primeiras comunidades cristãs descritas no Novo Testamento, a partir do episódio de Pentecostes. Essas pessoas recebem a efusão do Espírito de Deus e - na concepção dos carismáticos - já não são mais elas que oram, mas sim o Espírito através de suas bocas. (Maués, 2000, p. 132).
Segundo o sociólogo Pedro A. Ribeiro de Oliveira, em pesquisa pioneira, feita há mais de vinte anos,
(...) o dom da oração em línguas [é] o mais difundido entre os informantes. 38,8% dos membros da RC e 67,6% dos seus dirigentes têm o dom de orar em línguas. Em nossas entrevistas e questionários registramos apenas um caso de pessoa que diz orar em línguas como xenoglossia, isto é, pelo uso de uma língua existente, mas estrangeira, e que não tenha sido aprendida por quem ora; todos os outros casos registrados na pesquisa foram de glossolalia, isto é, um conjunto de sons pronunciados de modo ritmico, sem significação aparente. Diz D. Cipriano [bispo católico que escreveu, em 1976, tese de mestrado em teologia pastoral sobre a RCC] que ""não se trata de algo balbuciado em êxtase, mas tem-se perfeito controle dele, podendo-se cessar ou começar à vontade"". Essa linguagem de oração, não-conceitual, é usada em várias situações: quando não se encontram palavras para louvar a Deus, quando não se sabe como interceder pelos outros, como arma poderosa contra o pecado, para cantar sua alegria no Espírito. (Ribeiro de Oliveira, 1978, p. 52-3)
No mesmo trabalho acima citado, tratei sobre as ""três variações"" com que pode apresentar-se o dom de línguas: falar, orar e cantar em línguas.
Todas essas formas podem ser observadas nas reuniões da Renovação. Durante minha própria pesquisa nunca pude observar o fenômeno da xenolalia (ou xenoglossia, como diz Ribeiro de Oliveira), nem mesmo alguém declarou-me que possuía esse dom. Tive porém relatos a respeito de pessoas em outros grupos e reuniões que eventualmente falavam ou oravam, tomadas pelo Espírito, em ""línguas vivas"" ou ""mortas"", sem nunca as terem aprendido. (Maués, 2000, p. 133)
A discussão sobre se estamos, no caso, em presença de um fenômeno de estados alterados de consciência pode ser longa, especialmente em se tratando de questão que se coloque para nativos da própria Renovação, ou do Pentecostalismo. Dom Cipriano Chagas, bispo simpático à RCC, nega mesmo que se trate de uma forma de êxtase, como foi visto acima. O tema é colocado por Thomas Csordas, no segundo livro que dedica ao estudo da RCC americana, a partir do relato de uma experiência que teve bem no início de sua pesquisa:
No início de março de 1973, fiz os preparativos para assistir à minha primeira reunião de oração de católicos pentecostais. Estava especialmente ansioso para ouvir falar em línguas e refletia sobre os mais recentes relatos antropológicos que identificavam tal ""fala extática"" como um fenômeno de estados alterados de consciência (...). Fui de carro, do campus para uma igreja suburbana do meio-oeste, onde tinha lugar a reunião semanal do grupo de oração Cristo Rei, juntamente com um estudante de medicina e uma aluna de graduação, ambos membros do grupo. No caminho, o estudante de medicina sugeriu orações como forma de preparação espiritual para a reunião. Eu estava no banco traseiro do carro, enquanto os dois, na frente, devotamente oravam em línguas. Teorias sobre o transe e sobre estados alterados de consciência ocupavam completamente meus pensamentos enquanto nos aproximávamos do sinal vermelho. Eu especulava sobre se alguém em transe poderia parar em tempo no sinal e sobre o porquê do fato de minha primeira evidência empírica sobre esse tópico tinha de ser adquirida com tal risco aparente. Nada aconteceu. Não tive mesmo qualquer indício de que os reflexos do motorista tivessem se tornado mais lentos. (Csordas, 1997b, p. 41, tradução minha)
Como é bem conhecido, há uma discussão sobre a ocorrência do transe, com ou sem consciência de parte da pessoa afetada. Até mesmo naquilo que é interpretado, emicamente, como ""possessão demoníaca"", a percepção consciente do que acontece, ainda durante as crises mais violentas, é atestada por vários relatos, como o da famosa superiora possessa do Convento de Loudon, madre Joana dos Anjos, que escreveu suas memórias na década de 1640:
Freqüentemente a minha mente enchia-se de blasfêmias e às vezes eu as pronunciava sem ser capaz de pensar em evitá-las. Sentia uma aversão contínua por Deus e nada me provocava tanto ódio do que o espetáculo de sua bondade e da sua disposição para perdoar os pecadores arrependidos (...). É verdade que eu não agia livremente nesses sentimentos (...), porque o demônio me confundia de tal modo que eu mal distinguia seus desejos dos meus; além disso, através dele eu sentia uma forte aversão contra os meus votos religiosos, tanto que às vezes quando ele estava na minha cabeça eu rasgava todos os meus véus e os véus das minhas irmãs que conseguia segurar, pisava neles, mastigava-os, amaldiçoando a hora em que fiz os votos.
(...)
Quando me ergui para a Comunhão [diz madre Joana, num outro trecho de seu depoimento] o diabo tomou posse da minha mão, e quando eu recebera a Sagrada Hóstia e já a umedecera um pouco, o diabo jogou-a no rosto do padre. Sei muito bem que não agi assim livremente, mas tenho certeza que estava completamente confusa por permitir que o diabo fizesse isso. (Sargant, 1975, p. 71 apud Oesterreich, 1930, p. 49-50)
Minha própria experiência de campo mostra como, em várias situações que poderiam ser, no mínimo, classificadas como extáticas, as pessoas mantêm o conhecimento do que acontece em volta e podem, de certo modo, ""suspender"" seu êxtase, para realizar tarefas práticas, como, por exemplo, um dirigente, orando em línguas, sendo capaz de interromper essa atividade, para receber um recado importante, diante do público do seminário ou grupo de oração e, em seguida, tranqüilamente, retomar a mesma oração em línguas. Num outro contexto, existem relatos, por exemplo, nas religiões afro-brasileiras, de pais ou mães-de-santo que, incorporados por seus guias, interrompem sua atividade mística para atender a alguém que bate à porta, ou que acompanham procissões do catolicismo popular, recebendo bênçãos de padres e bispos, mantendo a incorporação por suas entidades e, de resto, comportando-se, durante esses rituais, quase como se nenhum santo ou orixá estivesse ""em sua cabeça"".
Quanto ao chamado ""repouso no Espírito"", temos ""uma situação que tipicamente acontece a partir da imposição de mãos"". A descrição que fiz, no mesmo trabalho acima citado, a partir de observação de campo realizada em Belém, em abril de 1999, foi a seguinte:
No segundo dia do encontro, após uma emocionada palestra/pregação sobre o Espírito Santo e seus dons, feita por uma jovem aparentando cerca de 25 anos, começou um canto em que se invocava o mesmo Espírito e o coordenador do evento (também bastante jovem) solicitou que as pessoas fechassem os olhos, orassem e ""se entregassem"". Fechar os olhos é uma técnica adicional - mas muito importante, utilizada em vários momentos -, que, porém, serve sobretudo para ajudar a receber os dons do Espírito e propiciar o ""repouso"". Houve então um longo momento de ""efusão do Espírito"", em que neófitos ou iniciados recebiam a imposição de mãos, enquanto estavam de pé, por parte de integrantes experientes do Grupo de Oração que promovia o evento (todos muito jovens) , e a maioria acabava caindo ao solo, de costas, sendo amparada por alguém que ficava por trás.
A situação-padrão era a seguinte: um iniciado experiente (homem ou mulher) impunha as mãos sobre a pessoa, tocando-a (na cabeça, principalmente, mas também às vezes no ombro, no peito ou nas costas), e começava a orar, em vernáculo e, algumas vezes, entremeadamente, em línguas. Quando a pessoa começava a perder seu equilíbrio e passava a balançar, um outro iniciado, do sexo masculino e geralmente mais forte, fisicamente, também impunha as mãos sobre a mesma pessoa e, esperando que ela caísse, gentilmente a amparava até que se acomodasse no chão do auditório. As cadeiras eram rearrumadas para que no chão pudesse caber tanta gente deitada. Tanto os neófitos como os iniciados repousavam no Espírito, geralmente por vários minutos; quando se levantavam, procuravam sentar-se logo nas cadeiras do auditório e, ainda, por alguns minutos, permaneciam como que concentrados, aparentemente meditando sobre ou se recobrando da experiência.
Esta pode ser, para os neófitos, a experiência do ""batismo no Espírito"" (que também ocorrerá de outras maneiras) e que, muitas vezes, é precedida ou passa a ser seguida pela glossolalia. (Maués, 2000, p. 134-35)
Em várias outras situações é possível observar fenômenos extáticos na RCC. Vou, no entanto, concluir este tópico tratando a respeito do chamado ""bailar no Espírito"", uma típica experiência de êxtase ou transe, que culmina, afinal, como foi dito acima, com o próprio ""repouso"", e que motivou o título principal deste artigo. Em mais de uma ocasião pude observar essa técnica, que é posta em prática, até quanto pude perceber, por fiéis um pouco mais experientes e já iniciados; neste caso não existem, como no episódio mais simples provocado pela imposição de mãos, quem conduz ao repouso, acima descrito, pessoas estrategicamente colocadas para amparar o tombo do fiel. Costuma-se dizer que o próprio Espírito protege seus devotos para que eles não se machuquem na queda. Em um outro Seminário de Vida ou Querigma do grupo ""Glória a Ti Senhor"", que ocorreu entre os dias 19 e 21 de maio de 2000, esteve presente, na última tarde, um diácono bem conhecido entre os carismáticos de Belém, famoso por seu entusiasmo e sua ""unção"". O sacerdote da paróquia onde se reúne o grupo de oração, embora convidado, não havia comparecido ao primeiro dia do encontro e, por isso, preferiu-se agora chamar o diácono, que atua em paróquia diferente da que pertence o referido grupo. Durante sua pregação, que entusiasmou a quantos estavam presentes, num dado momento foi possível observar-se a atitude de um senhor de meia idade que, ao som da música e embalado pelo canto emocionado do diácono, ""bailava no Espírito"", de forma considerada muito impressionante, com as mãos para cima, fazendo várias evoluções, em êxtase; isso durou alguns minutos, até que o mesmo senhor caiu ao solo e ficou, durante certo tempo, em repouso. Entrevistando-o, pude saber que ele, em nenhum momento - mesmo na ocasião do repouso -, perdeu a consciência do que estava acontecendo, mas, ao mesmo tempo, encontrava-se num estado de ""leveza"", de ""satisfação interior"" e de ""paz"", como nunca sentira antes em sua vida. O episódio foi comentado por muito tempo no grupo ""Glória a Ti Senhor"", tendo sido considerado uma bela demonstração de efusão do espírito.
Meus dados parecem indicar, assim, que não é possível adotar completamente as distinções propostas por Marion Aubrée, acima descritas. Embora o êxtase tenha sido referido, com freqüência, na literatura, como relacionado ao cristianismo, ele não se limita a essa manifestação religiosa, nem pode caracterizar-se apenas como algo que implica ""sair de si"", ou uma ""viagem"". Essas são características que, por exemplo, foram descritas por Mircea Eliade em relação aos xamãs de várias partes do mundo, cujos espíritos empreendem a viagem xamanística pelo mundo dos espíritos ou dos deuses, para relacionar-se com eles ou combatê-los, a fim de curar a doença de seus pacientes ou realizar outras façanhas. Por outro lado, para esse autor, ""o elemento específico do xamanismo não é a incorporação dos "espíritos" pelo xamã, mas o êxtase provocado pela subida ao Céu ou pela descida aos Infernos; a incorporação dos espíritos e a "possessão" são fenômenos universalmente difundidos, mas não pertencem ao xamanismo stricto sensu"" (Eliade, 1998, p. 542). Em artigo anterior (Maués & Villacorta, 2001), citando o conhecido trabalho do antropólogo Ioan Lewis, procuramos mostrar como essa posição de Eliade deve ser relativizada. Segundo Lewis,
todos os xamãs são médiuns e, como dizem, expressivamente, os caribes negros das Honduras Britânicas tendem a funcionar como uma ""ligação telefônica"" entre o homem e Deus. Evidentemente, não se pode concluir que todos os médiuns são necessariamente xamãs, apesar de (...) essas duas características estarem usualmente ligadas. As pessoas que sofrem regularmente possessão por um espírito particular podem ser consideradas como médiun para aquela divindade. Alguns, mas nem todos os médiuns, se graduarão a ponto de se tornarem controladores de espíritos e, uma vez ""dominando"" essas forças de maneira controlada, serão xamãs propriamente ditos. (Lewis, 1977, p. 56-64)
Assim, para Lewis, ao contrário de Eliade, a característica fundamental do xamã situa-se no controle que o médiun é capaz de manifestar sobre as entidades que o possuem, mas que, de certo modo, são também possuídas ou domadas por ele.
Neste ponto, creio ser relevante tratar, embora sumariamente, a respeito da pajelança rural amazônica, ou pajelança cabocla, que não se confunde com a pajelança (ou xamanismo) indígena. Trata-se de um culto de características xamânicas, no qual o oficiante (""pajé"" ou ""curador"") recebe entidades chamadas encantados ou caruanas, com a finalidade principal de curar os doentes que o procuram. Essa forma de pajelança está muito difundida, especialmente entre as populações rurais amazônicas, e pude estudá-la há alguns anos no litoral paraense, na microrregião do Salgado, mais especificamente no município de Vigia (Maués, 1995 e Maués & Villacorta, 2001). O estudo antropológico clássico sobre a pajelança cabocla e o catolicismo popular foi feito por Eduardo Galvão, no Baixo Amazonas, em seu livro Santos e visagens (1955). Tanto os dados de Galvão como os meus próprios reforçam a posição de Lewis relacionada ao xamã. A esse respeito vale dizer que, além de seus transes habituais, nos quais recebem os caruanas ao realizar suas sessões, os mais poderosos pajés amazônicos (chamados às vezes de ""sacacas"") são também pensados como capazes de realizar uma espécie de ""viagem xamanística"", visitando o mundo dos encantados, mas não apenas com seu espírito: acredita-se que eles visitam o ""encante"" (lugar de morada dos encantados) em estado normal, sem estar em transe, e lá, muitas vezes, aprendem técnicas curativas que irão mais tarde aplicar em seus pacientes (Galvão, 1955, p. 129-31 e Maués, 1995, p. 238-40).
Dois outros aspectos das formulações de Marion Aubrée merecem também comentário: o primeiro, que distingue o êxtase do transe pelo caráter consciente daquele, ao contrário deste; o segundo, diz respeito à presença de alucinações no transe, as quais estariam ausentes no êxtase. Minha experiência mostra que tanto a questão da consciência ou da inconsciência quanto a presença ou não de ""alucinações"" encontram-se em situações variadas na pajelança e na RCC. Na pajelança, a violência das incorporações descontroladas e que levam a um esquecimento total do que se passa nestes momentos está culturalmente associada a uma fase em que o candidato a xamã ou a vítima de maus espíritos não passou por tratamento ou processo de iniciação que conduza a pessoa ao controle de suas entidades. Na RCC, o mesmo se dá no caso daquilo que é pensado como possessão demoníaca. Nos dois casos, quando se trata de pajé experiente ou de fiel católico que recebeu os dons do Espírito, a tendência é a ocorrência de formas de transe ou de êxtase controlados, nos quais, via de regra, a pessoa a eles sujeita é capaz de relatar pelo menos alguns aspectos de sua experiência. Já no que diz respeito à presença ou ausência de alucinações, no sentido de ilusões, devaneios e fantasias (excluindo uma opinião sobre aspectos patológicos, que não sou competente para avaliar), pude constatar inúmeras vezes que tanto na RCC como na pajelança elas estão presentes no êxtase ou no transe (termos que tomo aqui aproximadamente como sinônimos). Na RCC, por exemplo, por ocasião das chamadas ""visões proféticas"", tive a possibilidade de escutar relatos fantásticos a respeito da presença ou aparição de anjos e da Virgem Maria, ou também da presença do Espírito Santo, no recinto da igreja ou no local da reunião, com abundância de detalhes e grande colorido na descrição feita por fiéis em êxtase ou sob efeito do transe de que estavam tomados.
Há no entanto um aspecto das formulações de Aubrée que me parece mais condizente com minha experiência etnográfica: é aquele em que ela faz a distinção entre ""transe de possessão"" e ""de inspiração"". É verdade que em ambos os casos penso que, tanto na pajelança quanto na RCC, o êxtase ou o transe, num sentido ético (em oposição ao êmico), implicam sim uma forma de ""possessão"" (que, neste caso, não significa, como disse acima, apenas a intrusão ou aproximação de um espírito considerado maléfico). Não obstante, no caso da pajelança, como no xangô, o xamã em transe muda de personalidade claramente, identificando-se e sendo identificado com o encantado ou orixá de que está possuído. No caso da RCC, como no pentecostalismo, evidentemente que o fiel, ao receber a ""unção do Espírito"", tanto no momento da glossolalia, do repouso, da profecia etc., não se transforma (num sentido êmico) na divindade, mas apenas recebe seus eflúvios ou fala por ela. Isto é muito evidente no caso da profecia, na qual o profeta carismático usa, como os profetas bíblicos, a primeira pessoa do singular ao enunciar suas palavras de caráter ilocucionário ou performático (Austin, 1990).
Considerações finais
A razão de ter privilegiado, neste trabalho, as técnicas corporais ligadas ao êxtase, ao transe e à possessão dizem respeito à conviccão, que tem sido fortalecida, por minha própria pesquisa, sobre o aspecto central das mesmas na RCC de Belém, a partir das observações que posso realizar. Isso está de acordo, também, com a literatura a que tenho acesso sobre o pentecostalismo no Brasil. Vários trabalhos, como os de Mariz (1997), de Machado (1996) e de Mariz e Machado (1996), têm chamado atenção para a relação entre carismáticos e pentecostais, para a importância do corpo em seus cultos e para a relevância das explicações de vários tipos de ocorrências, especialmente infortúnios, tais como doenças, que podem resultar da ação de seres espirituais. Muito freqüentemente - e isto tenho encontrado também, em minhas próprias pesquisas —, a explicação para desajustes familiares, pobreza, violência, pecado, doença e vários outros males está relacionada ao chamado ""Inimigo"" (o demônio). Em alguns momentos, a própria responsabilidade dos indivíduos é minimizada ou subestimada, se bem que, de minha experiência pessoal, nunca encontrei situações em que se possa de fato justificar os atos contrários à moral sob a alegação de que a pessoa agia contra a própria vontade. Há sempre a idéia de que, se a pessoa está ""entregue ao Inimigo"" é, também, porque ""não se aproxima de Deus"".
Mas o êxtase, o transe e a possessão constituem fenômenos centrais na RCC porque, num certo sentido, e no limite, essa forma de doutrina e prática religiosa - poderíamos estender isso a todo o pentecostalismo?6 - considera que, no fundamental, os seres humanos são uma espécie de ""possuídos"", como já foi enfatizado acima neste artigo. Se os males a que os indivíduos estão sujeitos resultam da ação do Inimigo, isto significa que o demônio e os demais espíritos maléficos exercem poderosa influência sobre os seres humanos. Essa influência pode manifestar-se de várias formas e, em algumas situações, através de estados alterados de consciência, como o transe hipercinético, isto é, a possessão violenta e mais ou menos espetacular. Algumas vezes, durante as próprias reuniões dos grupos de oração, como pude observar - embora raramente —, determinadas pessoas entram em transe e essa manifestação é interpretada como resultado da ação do demônio (manifestando-se em geral através da denominação de alguma entidade ligada às religiões afro-brasileiras). O próprio repouso no Espírito precisa ser interpretado por alguém que tenha discernimento, pois, caso a manifestação ocorra de forma mais demorada, com queda violenta e traumática, e com perda total de consciência, surgem dúvidas, como foi apontado acima, sobre se não se trata, de fato, de ação do diabo e não do Espírito Santo.
Não obstante, quando a pessoa adere à Renovação e recebe os dons do Espírito Santo, muitas vezes porque procura de modo consciente curar-se de seus males, a cura representa, em última análise, o afastamento do Inimigo do corpo (e da alma) daquela pessoa que, assim, poderá de fato realizar o ideal do cristão de tornar-se, efetivamente, o ""templo do Espírito"". O Espírito Santo, ao invés do Inimigo, passa a morar nela e, com isso, ela recebe seus dons, sua efusão, pode orar em línguas (""a língua dos anjos""), pode repousar e até bailar no Espírito, e pode exercer, ""conforme lhe são dados"", os diferentes dons do mesmo Espírito: profecia, discernimento, sabedoria, cura etc. Isso não é uma coisa tão simples, nem tão tranqüila, já que o processo tem de ser renovado constantemente, pois Satanás está sempre à espreita, disputando (com o divino) aquele corpo (e aquela alma). E, se houver, por qualquer razão, o afastamento de Deus, ela pode voltar a ser posse, possessão, do demônio. Desse modo, no limite, só há duas alternativas para os seres humanos: ou ser de Deus ou ser do Inimigo. E essas duas maneiras de ser, embora não se atualizem sempre em forma de êxtase, transe ou possessão, constituem um estado latente que, nas ocasiões em que são provocadas, propiciadas ou induzidas, se manifestam de diferentes formas, de modo conspícuo, com intensidades diversas.


Mais um relato sobre as farsas da RCC



Relatado por: 

Nome:Plinio Juliano Ramos

Local:Itabera - SP, Brasil
Religião:Católica
Idade:29 anos
Escolaridade:2.o grau concluído
Profissão:Industriário


Como muitos, eu também participei ativamente da RCC. Em 1995 eu era coordenador da secretaria Marcos, que caminhava com a juventude. Na ocasião nosso interesse era participar de forma ativa na Evangelizaçao. Algumas coisas pareceiam contraditórias, por exemplo: era preciso, antes de qualquer atitude, ouvir o que o Espírito Santo impulsionava, "mas desde que isso não contrariasse a organização diocesana", isso nunca foi levado em conta a opinião do Bispo. Pregava-se uma inudade, mas o que era claro é que, desde que fosse vavorável aos seus propósitos, em uma ocasião em que me lembro bem: fomos conversar com o coordenador da secretaria Pedro, que era a Pregação. nosso proprósito era pregar a Liturgia diária no grupo de oração, ou então como a "RCC" sempre dizia: ouvir o Espírito Santo, mas fomos impididos, pois na ocasião havia uma sequencias de leituras para serem refletidas no GO. Apartir disto surgiu uma divisão que era dita como os adultos e os jovens. No ano de 1999, em preparação para o Jubileu, formamos uma equipe e iniciamos uma caminhada de estudo do CIC e outros documentos, nos reuníamos aos Domingos as seis horas da manhã, rezávamos e estudávamos. então fomos para as comounidades rurais e fazíamos aí um dia de oração e reflexão do que havíamos estudado, o encerramento dessa caminhada foi uma cruz em cada capela, escrita: Missão Jovem. Até hoje permanecem como marco de uma caminhada, nossa cidade possui dezoito mil habitantes, em um dos sete encontros que organizamos chamado Cenvivência Jovem, conseguimos reunir seissentos e vinte e dois jovens só da nossa paróquia.
Hoje sou Testemunha Qualificada do Sagrado Matrimônio e dirigente de uma comunidade, meu desafio nas reunões para preparação do batismo que acontece na casa do candidato é: dizer que: O Batismo é Sacramento INDELÉVEL, onde o ser humano torna-se filho de Deus e recebe pela vontade de Deus o Espírito Santo, e que, se não fosse pelo Sacramento, a quem Deus ouviria, ou obedeceria, ou quem seria dígno de tão grande dádiva, e por fim por que alguem se destacaria perante Deus sendo mais ou menos dígno de receber o Espírito Santo, e ainda a questão do Repouso no Es´pirito Santo, que na verdade, ninguem tem real certeza de ter acontecido de fato ou não, em uma ocasião uma pessoa rezava por mim e como nada acontecia, literalmente fui empurrado para que me deitasse, isso aconteceu com todos naquele dia, hove em meu coração uma dúvida que domorou um bom tempoi para que as coisas ficassem esclarecidas. Isso é o maior absurdo pensar que Deus pode estar sob nosso domínio e que obedeça nossas ordens. A partir disto surge dúvidas e protestos, enquanto que a grandeza do Evangelho fica obscura. O que tento dizer é que a tudo Deus estabeleceu uma ordem natural para que as coisas aconteçam, infelismente estão querendo alterar isso. Se soubéssemos nos contentar e seguir realmente o que a Igreja em sua divina sabedoria nos adverte, seria tudo mais simples, mas vejo que a RCC, em nome de um "discrnimento" institui pessoas sem condições alguma tanto psicológica, emocional e sem o mínimo de bom senso para dizer das coisas que são determinates em nossa vida...

São muitas experiências que me ensinou o que não fazer para ser um cristão, quando vejo meus amigos naquela correria, onde não se encontra tempo para os filhos e a esposa, até o ponto de haver separação das famílias, eu me pergunto: e o que isso está trazendo de benefícios para a Igreja e para a sociedade? Precisamos ser pessoas admiradas e respeitadas pelo nosso caráter que deve ser fruto de nossa fé, e não criticados e zombados por dizer aquilo quem nem nós mesmo fazemos, se a RCC nos faz especiais, porque ainda há tantas resistências com aquilo que não pertence ao movimento?

obrigado por poder desabafar um pouco daquilo que por muitos momento ficou calado em mim diante de dos momentos em que a caminhada da Igreja é substituída pelo encontros e formações, etc, etc, etc................................................................................ 

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Salve Maria.
    Muito lhe agradeço sua confiança comunicando-me suas desilusões com a RCC. Deus o recompense.
    O que achei de mais incrível em seu relato foi a observação de que na RCC se podia ouvir o Espírito Santo desde que não contrariasse os planos do Bispo diocesano.

"era preciso, antes de qualquer atitude, ouvir o que o Espírito Santo impulsionava, "mas desde que isso não contrariasse a organização diocesana".
    Afinal, se o Espírito Santo é Deus, por que Ele estaria subordinado à decisão do Bispo?
    Essa contradição põe a nu, o delírio da RCC que pretende ser guiada pelo Espírito Santo, e que portanto, não se submete à autoridade da Igreja. Os pretensos carismas da RCC anulam, tornam inútil os Bispos e o Papa. Porque quem tem o Espírito Santo não precisa ouvir mais ninguém, nem padre, nem Bispo e nem Papa.
    O carismatismo destrói a autoridade da Igreja hierárquica.
    Outro ponto importante em seu relato é a constatação do fingimento do tal "repouso no espírito" -- carisma muito desejado por certos funcionários públicos...
    Sobre isso você me escreve bem sinceramente dizendo:

"a questão do Repouso no Espirito Santo, que na verdade, ninguem tem real certeza de ter acontecido de fato ou não, em uma ocasião uma pessoa rezava por mim e como nada acontecia, literalmente fui empurrado para que me deitasse, isso aconteceu com todos naquele dia, houve em meu coração uma dúvida que demorou um bom tempo para que as coisas ficassem esclarecidas. Isso é o maior absurdo pensar que Deus pode estar sob nosso domínio e que obedeça nossas ordens".
(coloquei em destaque suas palavras mais importantes).
    Possa sua confissão sincera abrir os olhos de muitos outros da RCC, para que abandonem esses delírios que iludem os mais simples e destroem a obediência à Igreja hierárquica.
    Deus o proteja sempre.

Como rezar - esquema de meditação

Além do santo rosário, oração fundamental de todos os católicos, recomendada por números Papas e cuja recitação foi solicitada por Nossa Senhora em Fátima, é fundamental também, para o aprofundamento da vida espiritual, achamada oração mental, ou meditação.

Abaixo, indicamos de forma esquemática, o modo de realizar aoração mental segundo o método de Santo Inácio de Loyola. Recomendamos também anossos leitores, com o mesmo objetivo, os capítulos referentes à oração do excelente Introdução à Vida Devota de São Francisco de Sales e oTratadoda Oração e Meditação de São Pedro de Alcântara. 



MEDITAÇÃO


PREPARAÇÃO REMOTA1. PREPARAÇÃO PRÓXIMACorpo da meditação: exercitar em cada ponto
MEMÓRIA – INTELIGÊNCIA - VONTADE
5. COLÓQUIOS
Para concluir, faço os colóquios, como um Ageu fala a outro amigo, ou um servo a seu senhor: às vezes, pedindo uma graça, outras culpando-se por algo que se fez mal, pedindo conselho, etc. Devemos falar e pedir segundo a matéria da meditação e a disposição da alma.


2. Memória3. Inteligência4. Vontade
A. Mortificação dos sentidos
B. Recolhimento habitual (união de coração a Jesus).
C. Humildade profunda e esquecimento de si mesmo.
D. Recordar os pontos da meditação.
A. De pé, faço o sinal da cruz, com água benta e ponho-me na pre sença de Deus.
B. Em seguida, faço a oração preparatória: pedir o que for para maior glória de Deus.
C. De joelhos, faço o primeiro preâmbulo: composição de lugar;
D. E o segundo preâmbulo: a graça a pedir.
Recordar o tema com as circunstâncias.
Razões que me iluminem e me persuadam:
 - que devo considerar sobre este tema?
 - que conclusão prática devo tirar?
 - como segui esta doutrina até hoje?
 - que obstáculos devo evitar para segui-la?
 - que meios devo empregar?
Vem agora o que deve ocupar a maior parte da meditação: excitar atos da vontade que inflamem o coração e animem a generosidade (vergonha, dor, desejos, adoração, louvor, ação de graças, amor, súplica, etc.), insistindo sobre a graça pedida; resoluções propósitos práticos, particulares, pessoais e apropriados, rezando à Santíssima Virgem, aos Anjos e aos Santos. Em caso de distração, regressar ao ponto 1.C
EXAME
Por fim, pensarei como foi a meditação: como a fiz? Em que ou por que a fiz mal? Quais foram as conclusões práticas e os seus motivos? Quais foram os afetos produzidos, os pedidos formulados, as resoluções tomadas? Que luzes recebi? Recolher tudo isso por meio de um pensamento, frase ou oração que possa servir-me de lema espiritual durante o dia.



CONTEMPLAÇÃO

PREPARAÇÃO REMOTA1. PREPARAÇÃO PRÓXIMACorpo da contemplação: em cada ponto, PESSOAS,PALAVRAS, AÇÕES
(participando em mesmo do mistério e buscando a graça pedida)
5. COLÓQUIOS
Para concluir, faço os colóquios, como um amigo fala a outro amigo, ou um servo a seu senhor: às vezes, pedindo uma graça, outras culpando-se por algo que se fez mal, pedindo conselho, etc. Devemos falar e pedir segundo a matéria da meditação e a disposição da alma.

2. Pessoas3. Palavras4. Ações
A. Mortificação dos sentidos.
B. Recolhimento habitual (união de coração a Jesus).
C. Humildade profunda e esquecimento de si mesmo.
D. Recordar os pontos da meditação
A. De pé, faço o sinal da cruz, com água benta e ponho-me na pre sença de Deus.
B. Em seguida, faço a oração preparatória: pedir o que for para maior glória de Deus.
C. De joelhos, faço o primeiro preâmbulo: composição de lugar;
D. E o segundo preâmbulo: a graça a pedir.
Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, os Anjos, os Santos, os homens. Seu exterior (rosto, idade, roupa, modos, movimentos). Seu interior: perfeições, sentimentos, virtudes, vícios, disposições, etc.

- Quem as diz?
- O que expressam? (louvor, repreensão, misericórdia, amor, ódio?)
- Sua natureza (de misericórdia, de justiça, de bondade, maldade, etc.);
- Suas circunstâncias (modo, tempo, lugar, causa, finalidade, conseqüências, etc.)
- Em caso de distração, regressar ao ponto c).

EXAME
Por fim, pensarei como foi a contemplação: como a fiz? Em que ou por que a fiz mal? Quais foram as conclusões práticas e os seus motivos? Quais foram os afetos produzidos, os pedidos formulados, as resoluções tomadas? Que luzes recebi? Recolher tudo isso por meio de um pensamento, frase ou oração que possa servir-me de lema espiritual durante o dia.

Liturgia: quem tiver olhos para ver que veja.


Nos escritos de São Pedro Julião Eymard encontramos uma alma abrasada pelo amor ao Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Entre tão belas meditações, encontramos uma que fazemos questão de expor aos nossos leitores. Não apenas pela beleza e pela santidade de tais pensamentos, mas também pela conveniência de tais palavras para tempos tão decadentes como os nossos.
Meditando sobre a honra devida ao Santíssimo Sacramento da Eucaristia, São Pedro proclama:
     “A Ele toda honra solene, toda a magnificência, toda a riqueza, toda a beleza do culto, cujos pormenores Deus houve por bem determinar, no culto mosaico, que era apenas uma      figura do nosso. Os séculos da fé, julgando-se sempre aquém do esplendor devido ao culto eucarístico, congregavam seus esforços nas basílicas e nos vasos sagrados, obras-primas de      arte e de magnificência.
     A fé era a autora dessas maravilhas. O culto e a honra tributados a Jesus Cristo são a medida da fé do povo, a expressão de sua virtude. Honra, pois, a Jesus Eucaristia que,      merecendo-a, a ela tem direito.”.
E o que fez a verdadeira fé no decorrer de séculos de história da Igreja? Esforçou-se para honrar a N. Senhor de modo solene, com toda magnificência e com a máxima beleza possível de culto:
Missa antigamissa antiga
missa antigamissa antiga
missa antiga
Como bem notou São Pedro Eymard, foi a fé que fez tudo isso. Foi a fé na Presença real, verdadeira e substancial de Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Foi a compreensão de que, pelo milagre da transubstanciação, Nosso Senhor está de Corpo, Sangue, Alma e Divindade na Hóstia Consagrada.
Mas, infelizmente, os tempos mudaram...
Após o Concílio Vaticano II, foi criado o Comitê para a aplicação da Constituição Conciliar sobre a Liturgia. Esse Comitê apresentou, num Sínodo de Bispos reunido em Roma, em outubro de 1967, uma celebração experimental que chamaram “Missa normativa”. Havia no Sínodo um total de 187 bispos votantes. Destes, 43 recusarão a tal Missa. Outros 62 aceitaram com reservas. Houve 4 abstenções. E o restante aceitou. Ou seja, de 187 votantes apenas 78 aprovaram sem contestações![1]
O que havia nessa “Missa normativa” que gerou uma rejeição tão violenta?
Apesar da rejeição, essa Missa foi promulgada na forma do Novus Ordo Missae pela Constituição Apostólica Missale Romanum, em 3 de abril de 1969. E o que havia causado escândalo antes, causou novamente em 1969...
Os Cardeais Ottaviani e Bacci, apoiados por um grupo de teólogos e padres, numa carta ao Papa Paulo VI declararam:
     “o novo Ordo Missae, considerando-se os novos elementos, suscetíveis de apreciações muito diversas, que aparecem aí subtendidas ou implicadas,distancia-se de modo      impressionante, tanto no conjunto quanto no detalhe, da teologia católica da Santa Missa, tal qual foi definida e formulada na XX seção do Concílio de Trento.”.[2]
E acrescentaram:
     “O novo Ordo Missae, como a ‘Missa normativa’, foi feito para agradar sobre muitos pontos os mais modernistas dos protestantes.”.[3]
Ora, é sabido que não foram apenas esses cardeais, teólogos e padres que reagiram, mas ocorreram diversas reações em todo o mundo. Esses cardeais, contudo, nos dão alguns argumentos impressionantes contra a Missa Nova.
Analisando a reforma do Novus Ordo Missae, eles encontraram diversos defeitos e erros graves. Nesse artigo nós vamos lembrar basicamente alguns daqueles que se referem à Presença real de N. Senhor na Eucaristia.
Primeiramente, ao analisar a definição de Missa da Constituição Apostólica Missale Romanum, chega-se à conclusão de que:
     “Nada disso implica na Presença real, nem na realidade do Sacrifício”.[4]
Simplesmente terrível.
Não é de se estranhar, pois, que Pe. Joãozinho e Pe. Fábio de Melo neguem tranquilamente a Presença real de Cristo na Eucaristia. Aliás, apesar das críticas eles não repudiaram as heresias e continuam divulgando-as em vídeos e em livros...
Também não é de se estranhar que os católicos não saibam mais o que é a Missa.
Na Constituição Apostólica que instaurou a Missa Nova já não se mencionava mais explicitamente o Santo Sacrifício. E por quê?
     “A razão pela qual o Sacrifício não é mais mencionado explicitamente é porque se suprimiu o papel central da Presença real.”.[5]
Por fim, continuam os cardeais, “é impossível não notar a abolição ou a alteração dos gestos pelos quais se exprime espontaneamente a fé na Presença Real. O Ordo Missae elimina:
  • As genuflexões, cujo número foi reduzido a três para o padre, e apenas uma (com exceções) para os fiéis, no momento da consagração;
  • A purificação dos dedos do padre sobre e no cálice;
  • A preservação dos dedos do padre de qualquer contacto profano após a consagração;
  • A purificação dos recipientes sagrados, que pode ser adiada e feita fora do corporal;
  • A pala protegendo o cálice;
  • A douração interior dos recipientes sagrados;
  • A consagração do altar móvel;
  • A consagração solene para altares móveis.
  • As pedras consagradas e relíquias dos santos no altar móvel ou na “mesa” quando a Missa é celebrada fora de um lugar sagrado. (Este último ponto cria a possibilidade de “eucaristias domésticas” em casas particulares).
  • As três toalhas no altar, reduzidas para uma.
  • A ação de Graças para a Eucaristia feita ajoelhada, agora substituída pela grotesca prática do padre e do povo sentando-se para fazer a ação de graças – um acompanhamento bastante lógico para o ato de receber a comunhão em pé.
  • Todas as antigas prescrições a serem observadas no caso de uma hóstia que caía no chão, as quais agora se reduzem a uma única e quase sarcástica instrução: “Ela deve ser recolhida de forma reverente”.
     Todas estas supressões não fazem senão acentuar, de modo provocante, o repúdio implícito do dogma da Presença real.”.[6]
Alguns lobos em pele de cordeiro tentam tapar o sol com a peneira. Não querem ver os problemas da Missa Nova, fruto do Concílio Vaticano II. Dizem eles descaradamente que o Ordo Missae de Paulo VI é a Missa que o Papa celebra e que, portanto, não pode ser criticada. Mas esquecem – esquecem? – que o Bento XVI referiu-se a Missa Nova nos seguintes termos:
     “Aquilo que se passou após o concílio significa absolutamente outra coisa: no lugar da liturgia fruto de um desenvolvimento contínuo, colocou-se uma liturgia fabricada. Saiu-se do      processo vivo de crescimento de desenvolvimento para entrar na fabricação. Não se quis mais continuar o desenvolvimento e a maturação orgânicos do vivo através dos      séculos, e se os substituiu – ao modo de produção técnica – por uma fabricação, produto banal do instante. Gamber, com a vigilância de um autêntico observador e com a intrepidez      de uma verdadeira testemunha, se opôs a essa falsificação e nos ensinou incansavelmente a viva plenitude de uma liturgia verdadeira, graças a seu conhecimento incrivelmente rico das      fontes.”.[7]
E o que nos diz esse grande estudioso da liturgia – tão elogiado por Bento XVI – sobre a reforma litúrgica?
     “De ano em ano a reforma litúrgica, saudada com muito idealismo e grandes esperanças por numerosos padres e leigos, se afirma ser, como nós já esboçamos, uma desolação      litúrgica de proporções assustadoras.”.[8]
Os lobos não sabem? Eles não vêem os problemas?
É evidente que sendo lobos fingirão não ver...
Em todo caso, nesse livro, apresentado pelo Papa Bento XVI como o ponto de partida para discussões sobre os problemas da reforma litúrgica, Mons. Gamber explica o porquê da desolação litúrgica. Segundo ele, houve na reforma litúrgica “uma assustadora aproximação com as concepções do protestantismo e, de fato, um afastamento considerável das velhas Igrejas do Oriente. O que significa nada menos que o abandono de uma tradição até este dia comum ao Oriente e ao Ocidente.”.[9]             
E qual foi o resultado dessa Revolução Litúrgica?
Quais foram as consequências das mudanças na liturgia e da abolição dos gestos e orações (tão justos e necessários) que explicitavam a doutrina católica da Presença real de N. Senhor na Hóstia consagrada?
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Pelos frutos conhecereis...
Recordemo-nos das palavras de São Pedro Eymard e meditemos com sinceridade sobre o exposto acima:
     “O culto e a honra tributados a Jesus Cristo são a medida da fé do povo, a expressão de sua virtude.
     
Quem tiver olhos para ver que veja.

O verdadeiro significado da Vocação Sacerdotal


A vocação tanto no sentido lato como no sentido estrito (a vocação sacerdotal), ambas são temas de muita discussão, seja entre grupos, seja na consciência da própria pessoa.
 
Isso se dá pois desde o século XVII o sentido de vocação sacerdotal foi corrompido e se perdeu a simplicidade com que era tratado o tema antigamente.
 
O autor de "La Vocation Sacerdotale¹", o Pe. Joseph LAHITTON, ao publicar seu livro gerou diversas polêmicas no meio eclesiástico, principalmente entre reitores de seminário e teólogos, pois a explicação que expõe sobre o que é a Vocação Sacerdotal contrasta fortemente com o que a maioria das pessoas desde o século XVII (autores santos inclusos) pensam sobre o tema. Por isso, muitos deles quiseram colocar seu livro no Index e, para solucionar de vez a questão, o Papa da época, S. Pio X, resolveu criar uma comissão de cardeais para analisar o livro. Dessa comissão saiu o parecer definitivo de que o livro do Pe. LAHITTON expressa a mais ortodoxa doutrina católica sobre o tema. Mesmo assim, infelizmente, essa obra ainda é muito pouco conhecida atualmente e, conseqüentemente, a idéia errônea sobre a Vocação Sacerdotal ainda é muito difundida entre os católicos do mundo.
 
Não pretendemos abordar todo o livro neste artigo, pois ele trata exaustivamente sobre o tema e aqui nos limitamos apenas a ressaltar os pontos principais acerca da Vocação Sacerdotal tal como ela deve ser compreendida.
Primeiramente, o que pode chocar muitos, nenhum seminarista do mundo tem Vocação Sacerdotal. Mesmo os que juram de pé juntos terem "sentido" a Vocação no âmago do seu ser, ou os que dizem querer ser sacerdote desde a mais tenra idade tendo inclinação para tal, nenhum deles tem a Vocação Sacerdotal. E por quê? Porque apenas o Bispo confere o chamado sacerdotal ao chamar (vocare) o candidato ao sacerdócio no Rito da Ordenação. Apenas após receber a Ordem é que se pode dizer, em sentido próprio, que a pessoa recebeu a Vocação Sacerdotal, pois recebeu esse chamado de Deus por meio do Bispo, representante de Deus na Terra. E também é por isso que, em sentido estrito, é errado dizer que um padre pode perder a vocação ao longo da vida, pois tendo o caráter sacerdotal impresso na alma, não se o perde mais, mesmo após cometer as piores atrocidades.
 
O que querem dizer, então, quando falam que alguém tem vocação ou perdeu a vocação?
 
Deve-se entender aqui a vocação no sentido amplo da palavra, sendo sinônimo de idoneidade ao sacerdócio. Essa idoneidade, para o sacerdócio, consiste em: ser homem, batizado, com condições físicas, intelectuais e morais necessárias para exercer o sacerdócio. Logo, para buscar o sacerdócio, é preciso ter: intenção retaidoneidade intelectualidoneidade moral. Critérios bem objetivos, nada sendo dito de fatores subjetivos tais como: inclinação ou atração ao sacerdócio, graças místicas extraordinárias, etc.
 
O autor ressalta que a vocação pode ter 3 origens:
  1. Revelação divina formal, como é o caso de S. João Bosco que teve a visão na qual cuidava de garotos e Nosso Senhor o chamava para cuidar deles.
  2. Inspiração divina, isto é, se tem um impulso da vontade pela graça em direção ao sacerdócio, sem uso das sugestões da imaginação nem da deliberação da inteligência
  3. Eleição sobrenatural, relativa à virtude da prudência infusa, sem revelações pessoais, nem impulsos da vontade, mas fruto de meditações, deliberações e de eleição feita à partir da livre iniciativa.
Aparentemente, o modo 1 seria o ideal para avançar em direção ao sacerdócio, enquanto que o modo 2 seria o mais comum e o modo 3 seria algo de sacrílego, pois como pode alguém, utilizando apenas a inteligência, buscar o sacerdócio sem ter sido chamado por Deus? Seria um usurpador!
 
E é aqui que todos se enganam. O modo 1 e 2 podem nos enganar, pois podemos nos iludir achando que é inspiração divina o que é inspiração do demônio. Enquanto que o modo 3, baseado na reta razão, que explicaremos mais à frente, é o mais seguro. Assim, os modos 1 e 2 só servem para formar o modo 3, enquanto que o modo 3 se basta por si mesmo. Não se ignora aqui que o modo 3 pressupõe a graça, pois toda moção a um bem sobrenatural (a maior glória de Deus e a salvação das almas pelo sacerdócio) não pode ser fruto da natureza humana, mas da graça divina. O que se exclui aqui é a teoria da expectativa, onde se espera receber um sinal de Deus para se decidir em favor do sacerdócio.
 
Em 1907, o cardeal Gennari numa obra em que diz: "deve-se evitar dois opostos: o semi-pelagianismo que diz que podemos com nossas obras e livre-arbítrio nos antecipar à graça e o quietismo que ensina que devemos antes esperar receber a graça sem nada fazer anteriormente devendo apenas seguí-la. O correto é que a graça é necessária para começar, prosseguir e completar qualquer boa obra, mas essa graça não é extraordinária ou sensível. Logo devemos nos esforçar a fazer obras santas, supondo sempre em nós a dita graça. Se Deus se manifesta de modo sensível, cabe examinar com diligência se ela vem de Deus" (pg. 136, "Del falso misticismo")
 
No que consiste, então, essa resolução ao sacerdócio?
 
Essa resolução se dá pelo seguinte silogismo genérico:
  1. Ama-se a Deus e se quer fazer algo por Ele (querer inicial [aqui o autor utiliza o termo "sentimento inicial", o que daria a impressão do sentimento vir antes de tudo, mas mais à frente ele classifica mais adequadamente essa postura inicial como "querer primitivo" que, obviamente, aparece após se conhecer algo de Deus, pois só podemos querer algo após o conhecermos])
  2. Quer-se que outras almas tenham o mesmo querer em relação a Deus (intenção inicial)
  3. Como alcançar isso? (deliberação)
  4. Pelo sacerdócio!... mas sou tão fraco!... Todavia: "tudo posso Naquele que me conforta²" (conclusão da deliberação)
  5. Escolho então o sacerdócio! (eleição)
  6. Serei então padre. Devo buscar o sacerdócio. (intenção nova)
  7. Como alcançá-lo? (nova deliberação)
  8. Entrando no seminário. Sendo dócil à formação que lá se dá e correspondendo às graças de Deus (conclusão da deliberação)
  9. Entrarei então no seminário e farei o que me propus (nova eleição)
  10. Entremos, então, no seminário e mãos à obra! (resolução imperativa)
  11. Vida no seminário até atingir o sacerdócio (execução)
Aqui, cabe ressaltar que o item (d) pode ser substituído por outra coisa, como a vida religiosa, ou a de leigo celibatário, ou a de casado. O que se busca ressaltar aqui é a intenção e a razão que devem mover o candidato ao sacerdócio. Basta escolher o sacerdócio por um motivo digno do sacerdócio, e assim tem-se uma intenção sobrenatural. Não há aqui nem revelação, nem inclinação sobrenatural, nem inclinação natural. Elas podem ajudar a atingir a eleição do sacerdócio, mas não são essenciais.
 
Ora, só podemos querer algo que conhecemos. É por isso que não se deve levar em conta quando uma criança ou um recém-converso diz querer ser padre. Deve-se antes compreender o que é o sacerdócio para depois se tomar uma decisão prudente, com a ajuda de conselhos de pessoas
convenientes, em direção dele.
 
Daqui decorre a utilidade dos Seminários Menores para mostrar aos jovens o que é o sacerdócio e à partir dele tomarem a decisão mais fundamentada de seguir ou não em direção ao Seminário Maior. O Seminário Maior não é, no entanto, o local onde estão as pessoas que inexoravelmente serão padres. Sua função ainda é a de fazer conhecer a vida sacerdotal, retificar a intenção dos candidatos para ajudá-los a tomarem melhor a decisão e torná-los idôneos intelectual e moralmente, até o dia em que fizerem os votos, ao receberem o subdiaconato.
 
Após ter feito a eleição pelo sacerdócio, o candidato deve ter a intenção firme e constante de obter, não o sacerdócio, mas a idoneidade sacerdotal. A idoneidade do candidato, porém, não lhe dá direito à Ordenação. Isso se dá, pois não se é padre para benefício próprio, mas para o bem da Igreja, e quem decide quais são as necessidades da Igreja são os Bispos. Logo, se um Bispo, hipoteticamente, precisar de apenas 3 padres para a sua diocese, e possuir 20 seminaristas no seminário, ele pode, ou melhor,deve, escolher apenas os 3 mais aptos para o cargo, não necessariamente os mais santos, pois esses podem viver melhor como religiosos do que padres, mas os mais aptos às suas necessidades. Não se deve ser padre para buscar primeiramente a santidade própria, isso é próprio dos religiosos, mas se deve buscar ser "vocacionável" em relação ao Bispo, isto é, se deve buscar ser cada vez mais idôneo intelectual e moralmente. Não há um direito ao sacerdócio, mas é o Bispo quem decide quem será ou não padre, com base em limites mínimos de idoneidade intelectual e moral, pois que ninguém é capaz de alcançar, dentro do espaço de tempo de uma vida humana, a ciência e a santidade próprias do sacerdócio, mas se deve buscá-las continuamente.
 
Deus pode não querer necessariamente que alguém venha a ser padre, como é o caso típico do pai de Santa Teresinha de Lisieux. Deus pode querer que alguém fique no Seminário por um determinado tempo e depois saia, utilizando o que aprendeu lá dentro em benefício para o resto de sua vida. O
seminarista deve primeiro buscar fazer a vontade de Deus antes que buscar o sacerdócio "à todo custo". Um exemplo disso é a história de Abraão e Isaac. Deus move interiormente Abraão a imolar seu filho, Isaac, mas não quis que isso chegasse a cabo, impedindo na última hora que Abraão imolasse seu filho, sem, contudo, tê-lo impedido antes. Santa Teresa d'Ávila, longe de atração, tinha repúdio à vida religiosa, mas decide por ela mesmo assim para garantir sua salvação. A fé dá as premissas e a razão as une para obter uma conclusão.
 
No que tange a falta de vocação, vemos que ela é devida à omissão de Bispos e padres no seus respectivos papéis de recrutadores de sacerdotes em que deviam formar os jovens, tornando-os idôneos ao sacerdócio e motivando-os a conhecer a vida sacerdotal, a começar com o exemplo próprio.
 
Hoje em dia, a motivação de seguir o sacerdócio provém principalmente de livros de santos, pois os exemplos de muitos sacerdotes atuais mais desmotiva que ajuda um jovem a ser sacerdote.
 
O Bispo, no seu papel de "procurador da vinha³" não deve esperar sentado enquanto jovens que "se sentem chamados" lhe vão ao encontro para se tornarem sacerdotes. Esta é a noção errada de vocação sacerdotal que produz diversos frutos ruins. S. Paulo ao chegar num lugar novo, esperava ele que pessoas viessem tornar-se padres? Como poderiam se nem sabiam o que é o sacerdócio? Foi S. Paulo que após instruir o povo, escolheu os mais idôneos para o sacerdócio. Então a atitude é objetiva e parte do superior para o inferior, e não o oposto, onde o inferior, por uma moção subjetiva, busca o superior.
 
De fato, atualmente não é mais possível que o Bispo escolha o sacerdócio dentre todos os fiéis de uma cidade grande pois é impossível conhecer bem todos os candidatos, daí a necessidade do Seminário que "filtra" os interessados de modo que o Bispo escolherá para o sacerdócio apenas os que se dispõem para tal, no seminário. Essa redução do espaço amostral não implica que todos os seminaristas virão a ser padres, pois o Bispo tem o dever de chamar apenas os que preencheram os quesitos por ele estabelecidos (incluindo as idoneidades intelectual e moral). O autor, por experiência, diz que um Bispo nunca se arrependeu ao dispensar um candidato por engano, mesmo sendo ele idôneo para o sacerdócio, mas se arrependerá amargamente pelo resto da vida por apenas um candidato não-idôneo que ele tenha feito sacerdote, pois ele será parcialmente cúmplice de todos os erros e escândalos que esse padre cometer, mostrando com qual rigor o Bispo deve ter para selecionar os candidatos.
 
Finalizando a explicação sobre a verdadeiro significado da Vocação Sacerdotal4, tratarei do que é necessário para um candidato buscar o sacerdócio: a intenção reta, a idoneidade intelectual e moral.
 
Há 3 julgamentos que podemos fazer sobre a idoneidade de um candidato:
  • zona externa: são os impedimentos físicos e canônicos de um candidato ao sacerdócio. Por exemplo, uma pessoa muda não pode ser padre, pois lhe é impossível consagrar uma hóstia.
  • zona intermediária: exteriormente, o candidato demonstra sua idoneidade moral e intelectual, ao seguir ao longo dos anos no seminário o regulamento e conseguindo boas notas nos exames.
  • zona secreta: aqui o candidato coloca-se diante de Deus e da Igreja. Convém pedir conselho a alguém mais sábio, um diretor espiritual de confiança, por exemplo.
Deve-se ter também o desejo de castidade perpétua e "manter-se numa dependência perpétua da ação divina, se desconfiar constantemente de si mesmo, rezar constantemente, agradecer a Deus pelo que recebeu e implorar aquilo de que ainda se tem necessidade." (pg. 108 do livro).
 
A intenção reta se fundamenta na glória de Deus e na salvação das almas, buscadas espontâneamente em direção do sacerdócio, mesmo após hesitações e repugnâncias.
 
A idoneidade intelectual consiste na capacidade de aprender as ciências propriamente sacerdotais. O autor aconselha: "Se queres fazer progressos rápidos e sólidos nos estudos das ciências sagradas, aplique-os à sua conduta" (pg. 453)
 
A idoneidade moral consiste nos 3 julgamentos que expusemos acima. Se houver queda certo tempo antes do subdiaconato, convém esperar mais antes de receber essa ordem que já exige os votos. Aqui o autor recomenda duas características que devem ser próprias de todo seminarista: a humildade e o espírito de sacrifício. Máximo a se buscar: "a medida de amar a Deus é amá-lo sem medida5".
 
Essa é, em resumo, a noção verdadeira da Vocação Sacerdotal.
 
Então, de onde veio a idéia moderna de vocação largamente difundida em nossos dias?
 
O autor explica que o sentido da palavra "vocação" foi alterado no século XVII para evitar a vinda de padres indignos que buscavam o sacerdócio para obter vantagens para a família ou por falta de coisa melhor a fazer (não queriam trabalhar, guerrear, etc.). Mas essa foi a saída errada, o correto seria que os Bispos barrassem esses candidatos, mas, por fraqueza humana, não o fizeram...
 
Desde então, a vocação é entendida como uma inspiração divina (modo 2) e não como fruto de uma meditação deliberada (modo 3) pela qual se busca a idoneidade para alcançar o fim. De tal modo que muitos buscam o sacerdócio com base em consolações espirituais recebidas e, ignorando o quesito da idoneidade, "bem rápido o anjo [a atração sensível] some, fica só a besta!" (pg. 360). Essa idoneidade deve ser analisada pelo Bispo (ou alguém delegado por ele) e pelo próprio candidato (se busca ser honesto diante de Deus).
 
Isso explica a dificuldade de se entenderem os textos que tratam atualmente sobre o tema da vocação, mesmo entre os santos, como, por exemplo, o grande doutor da Igreja, Santo Afonso. Ele condena os Bispos que conferem as Ordens aos não-chamados. Ora, pela explicação acima, sendo o Bispo quem dá o "chamado" propriamente ao candidato, não faz sentido o Bispo "chamar" quem já é "chamado", como Santo Afonso quer. Pela noção moderna de vocação, se entenderia que Santo Afonso queria que os Bispos ordenassem só os que se sabem "chamados por Deus", por meio de algum sinal de vocação interior recebido. Mas tampouco é isso que Santo Afonso quer dizer. Santo Afonso, apesar de não se expressar claramente, quer dizer apenas que o Bispo não deve dar as Ordens para os que não são idôneos, esse sendo o sentido que busca dar à palavra "chamado".
 
Santo Afonso é acusado pelo autor de ter sido influenciado pelo rígido Habert (1668) em relação à teoria da predestinação a um estado de vida determinado. Santo Afonso teria se baseado numa opinião teológica bastante difundida em sua época. Essa opinião é fruto de uma confusão. Com base nos princípios corretos de que cada homem chega nesse mundo com seu destino fixo pelos planos eternos e de que é necessário se preocupar em fazer a vontade de Deus e de ser fiel à nossa destinação, conclui-se estranhamente que é necessário conhecer o que está nos decretos eternos antes de escolher um estado de vida.
 
Dessa tese rigorista decorre que: Deus tem um plano para a nossa vida que leva a um estado de vida determinado fora do qual se é um "desviado". Entrar num estado sem a ele ser chamado ou não entrar onde se é chamado são dois casos igualmente perigosos para a salvação eterna. Deus nos teria preparado apenas uma via pela qual seremos salvos e na qual nos são preparadas graças especiais que deveríamos receber.
 
Essa tese é atualmente condenada devido às seguintes razões: somos incapazes de conhecer os projetos divinos para nós (salvo revelação expressa); as vontades particulares de Deus nos são desconhecidas; a única conformidade possível com a vontade de Deus é sob a razão de bem em geral ("sub rationi boni"), e essa razão nos é conhecida pelas regras universais dos mandamentos divinos e os conselhos evangélicos, uns dizendo o que é prescrito, os outros o que é melhor e facultativo.
 
Por isso é que Santo Ambrósio já dizia: "Escolha o estado de vida que quiser e Deus lhe dará as graças próprias e convenientes a esse estado para que nele viva honesta e santamente6". E segundo Santo Tomás de Aquino, a Providência de Deus não impõe a ninguém (geralmente) um estado de vida determinado; mas ela dispõe tão bem os temperamentos e as inclinações dos homens que, junto com as livres escolhas feitas por cada um, se vê que a cada carreira humana se acha um número conveniente de livres-candidatos. Logo, pode-se tanto ser sacerdote, religioso, leigo celibatário ou leigo casado. Deus dará as graças convenientes a cada estado, não havendo "graças especiais" reservadas, ou "condenações implícitas" decorrentes da escolha de um estado de vida, contanto que a pessoa escolha o estado de vida com a intenção reta, sob os ditames da prudência natural e sobrenatural.
 
Da noção torta de vocação que temos atualmente decorrem diversos erros. As pessoas de temperamento mais frio, refratárias aos sopros de certa sensibilidade mística, embora sendo idôneos, não "se sentindo chamados", evitam o sacerdócio. Os entusiastas, propensos às ilusões, fazendo pouco caso das capacidades necessárias para o sacerdócio, ressaltam ainda mais o que consideram como voz interna e presunçosamente a exteriorizam aos outros. Citam o S. Cura d'Ars como exemplo, mas esquecem de dizer que houve apenas um S. Cura d'Ars na História da Igreja! Devemos imitá-lo na santidade, sem dúvida, mas não na sua incapacidade de estudo que Deus supriu de uma maneira singular e excepcional.
 
Outra conseqüência desastrosa da falsa noção de vocação é achar que o Seminário e o chamado do Bispo no dia da Ordenação são meras formalidades canônicas, apenas confirmam uma predestinação ao sacerdócio já presumida pelo candidato. Os que estão "certos" de terem uma vocação vivamente sentida, negligenciam seu aperfeiçoamento em vista do sacerdócio, enquanto que os bons são excluídos dos Seminários, por não ousarem serem padres...
 
Com as noções ensinadas pelo autor acerca da Vocação pode-se melhor compreender certas frases como: "S. João Bosco disse que de cada três meninos, ao menos um tem vocação". Isso não quer dizer que um terço dos meninos deve invariavelmente tornar-se sacerdote. Não. Isso quer apenas dizer que um terço dos meninos tem as condições mínimas para serem idôneos ao sacerdócio.
 
Há outros textos sobre vocação que oscilam entre a noção correta de Vocação Sacerdotal e a noção moderna, errada. Por exemplo, há um texto que lamenta os "que se sentem chamados mas não querem responder". Ora, o chamado no sentido estrito é o que o Bispo fala no Rito da Ordenação, logo não há "sentir" algum do candidato. O outro sentido, mais largo, é a idoneidade do candidato ao sacerdócio (também conhecido como "sinal de vocação") que se baseia numa análise objetiva de suas capacidades e também não envolve nenhum "sentir". Logo, vemos claramente como esse texto se desvia da compreensão correta da Vocação Sacerdotal.
 
No entanto, mais à frente, o texto indica corretamente alguns erros relativos à idéia de vocação como "Outros imaginam que faz falta ter escutado algum dia, uma pequena voz interior que lhes dizia: 'vem...!'", mas depois dá a entender a idéia de "predestinação a um estado de vida" quando diz: "é verdade que um homem que por sua culpa se põe fora do caminho que Deus o chama de maneira certa e insistente (porque há chamados mais insistentes que outros), este indivíduo se privaria de muitas graças e poria em risco a sua salvação".
 
Novamente volta a dizer a noção correta quando simplifica "O sábio teólogo Noldin diz: 'qualquer pessoa que tem a idoneidade e a intenção reta e aspira ao sacerdócio, pode apresentar-se ao Bispo'". Assim, o texto não trata com a mesma clareza sobre o tema tal como Pe. LAHITTON expõe em seu livro aprovado por S. Pio X.
 
Em suma, relato um resumo feito por um livro de Vocação Sacerdotal sobre a posição do Pe. LAHITTON: "A postura de LAHITTON tem evidentes consequências práticas: deixa claro que a vocação não é um sentimento interior, nem um desejo ou inclinação da pessoa pelo ministério, a vocação é uma chamada de Deus através da Igreja representada pelo Bispo. A chamada do Bispo é a vocação definitiva e o critério que este seguirá será comprovar as aptidões do candidato e a utilidade da diocese.7"
 
Esperamos que este artigo ajude a muitos, assim como nos ajudou a entender corretamente sobre esse tema atualmente tão mal compreendido e tão importante, de modo a não precisarem se lamentar tal como S. João Bosco em seu livro quando disse: "Se ao menos eu tivera alguém que cuidasse da minha vocação! Que grande tesouro ele seria para mim, mas eu não tinha esse tesouro. Eu tinha um bom confessor que buscou me fazer um bom Cristão, mas nunca buscou se envolver pela questão da minha vocação.8". Vemos que seu confessor considerando a vocação erroneamente como uma inspiração divina pessoal na qual não deveria se envolver, mas apenas Deus, não buscou analisar objetivamente a idoneidade de D. Bosco e levá-lo, após convite seu, a um Seminário para definitivamente ver se ele poderia ser ou não sacerdote.
 

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